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por Helvídio Mattos
O que escrever sobre Zico? Que ele é o maior artilheiro da história do Maracanã? Que ele e Flamengo são uma coisa só? Que Zico é um dos maiores (se não o maior) cobradores de falta do futebol mundial? Que descobria brechas na defesa adversária como poucos eram, e são, capazes de descobrir? Que Zico é tudo isso e muito mais?
Mas se você, um dia, for a Quintino Bocaiúva, bairro do subúrbio do Rio, ali pro lados de Madureira, vai conhecer o Arthurzico, o menino que tomou o apelido de Galinho porque, dizem, sempre que o pai, goleiro, engolia um frango ele cacarejava imitando um galo. Mas, certamente, você vai ouvir outra versão sobre o apelido, talvez a verdadeira, a de que foi o narrador Waldyr Amaral o primeiro a chamar Zico de Galinho de Quintino, pelo jeito de andar do futuro craque.
Lá, nas ruas do subúrbio, você vai saber que o pequeno Arthur já causava admiração quando jogava no Juventude, time de futebol e bloco de carnaval com sede no quintal da casa dos Coimbra. No Juventude, Zico tinha a companhia de Antunes e Edu, irmãos de sangue e de bola. Quem viu o garoto jogar naqueles tempos jura, de pés juntos, que o que ele fazia no campinho de terra já era muito mais do que fez em toda a carreira de jogador profissional.
É por isso que os mais antigos moradores de Quintino continuam a ter uma certeza na vida: Arthur Antunes Coimbra já nasceu craque.
Arthur Antunes Coimbra
03 de março de 1953
Rio de Janeiro, RJ
Principais Títulos
Campeão Copa Libertadores de 1981 (Flamengo)
Campeão Mundial Interclubes de 1981 (Flamengo)
Quatro vezes campeão brasileiro pelo Flamengo – 1980, 1982, 1983 e 1987
16 títulos estaduais (Taça Guanabara e Campeonato Carioca)
Depoimento de Fernando Calazans, o jornalista que uma vez decretou: “Se Zico não ganhou uma Copa, o azar é da Copa”.
Que festa é essa em que todos se perfilam para celebrar o fim de um dos mais felizes casos de amor e identificação que o futebol brasileiro já produziu? Que festa estranha, essa festa irreal, em que o rosto da multidão se ilumina com um sorriso falso – máscara sob a qual todos choram, no íntimo, a partida do ídolo.
Triste homenagem que vai colocar o ponto final numa paixão de mais de 20 anos que, ao contrário de todas as paixões, terminará mais acesa e ardente do que quando começou. Daqui a poucos dias, em noite solene e nostálgica no Maracanã, Zico estará se despedindo para sempre da torcida do Flamengo.
Poucas vezes um jogador de futebol terá se identificado tanto com a camisa que vestiu em campo e com a bandeira que a torcida levantou por ele nas arquibancadas.
Perde o Flamengo seu maior ídolo; perde o Brasil um de seus craques imortais. Zico foi, com certeza, o jogador mais brilhante que surgiu no país depois da maravilhosa geração da Copa de 70. Durante 20 anos, reinou, soberano, no plano mais elevado da hierarquia do futebol brasileiro.
Graças a um futebol que atingiu o mais alto grau de sofisticação e requinte através da simplicidade que ele colocou em cada um de seus passes, de seus dribles, de seus gols. Foi certamente este o segredo que distinguiu Zico dos demais, como tem sido este, sempre, o segredo que distingue os grandes talentos do jogador comum: a naturalidade com que descobria soluções para as jogadas mais difíceis.
Impossível analisar, separadamente, em Zico, o goleador e o armador de jogadas. Pois ele foi as duas coisas ao mesmo tempo: a rapidez com que irrompia na área para decidir o lance (e, tantas vezes, o jogo) convivia em absoluta harmonia com a serenidade com que acalmava o meio de campo antes de executar o passe fatal. Uma jogada de Zico: o descortino com que a concebia e a precisão com que a executava! Por isso, pode-se dizer que seu futebol era, simultaneamente, um futebol de reflexos e de reflexão.
As contusões acrescentaram à carreira de Zico um tom dramático que contribuiu certamente para humanizar o mito, aproximando-o ainda mais do homem comum das arquibancadas, que sofreu com ele e por ele. Seu denodo e seu desprendimento para ajudar o Flamengo a conquistar os títulos mais importantes, não raro às custas do próprio sacrifício – tudo isso, aliado ao futebol de primeira que sempre jogou, colaborou na construção da imagem irretocável do ídolo. Zico foi e é exemplar, como jogador e profissional.
Seu amor ao futebol fez dele um obstinado na luta sem tréguas contra uma contusão no joelho que praticamente o afastou de uma Copa do Mundo (México, 1986) e o condenou a freqüentes períodos de inatividade e tratamento penoso. Mas, hoje, sabe-se com certeza que era nesses dias de sofrimento e solidão que ele armazenava forças para voltar a exibir seu jogo cada vez mais altruísta e cerebral.
Agora tudo isso acabou. O acontecimento da próxima terça-feira no Maracanã, que nós chamamos de festa, nada mais é do que o sepultamento de uma era do futebol brasileiro, em geral, e do Flamengo, de modo muito particular. É o fim da era Zico. Mas seus passes, seus dribles, seus gols hão de ficar para sempre na nossa lembrança como uma luminosa manifestação da mais pura arte brasileira.
* A crônica O Jogo do Adeus está no livro O Nosso Futebol, da editora Mauad (1998). Foi escrita em 02 de fevereiro de 1990, uma sexta-feira.