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- 10h36
- 06Nov
Por Guga, Larri Passos recusou Djokovic, Murray e Verdasco
por ESPN.com.br com Agência GE
Dos 10 primeiros colocados do ranking mundial, três poderiam ter sido treinados pelo técnico Larri Passos. Afastado de Gustavo Kuerten entre março de 2005 e setembro de 2006, ele recebeu propostas do sérvio Novak Djokovic, atual terceiro na lista da ATP, do escocês Andy Murray, quarto do planeta, e do espanhol Fernando Verdasco, oitavo colocado. Por fidelidade ao tricampeão de Roland Garros, o gaúcho recusou e se manteve à espera da retomada da parceria.
"Eu fui procurado. Não vou negar. Agora, posso falar", revelou o treinador em uma longa e franca entrevista à GE.Net. Hoje com 22 anos, Djokovic tem 14 títulos, entre eles a Masters Cup-2008 e o Aberto da Austrália-2008. Murray nasceu no mesmo ano de 1987 e contabiliza 13 taças, quatro de Masters, além do vice-campeonato do Aberto dos Estados Unidos-2008. Em 2005, o sérvio encerrou a temporada como 78º do mundo e o escocês, como 64º. No ano seguinte, eles ganharam seus primeiros torneios e se aproximaram do topo da lista.
Atual treinador da eslovaca Daniela Hantuchova, tenista com a qual espera voltar a conquistar um Grand Slam, Larri Passos garante não se arrepender por recusar os convites de alguns dos melhores tenistas da atualidade. No entanto, ele avisa que tem vontade de voltar ao circuito masculino e desdenha do nível dos torneios. Em seu Instituto na cidade de Balneário Camboriú, o gaúcho sonha encontrar um novo número 1 do mundo. "Quem ama o tênis, vive de utopia. A gente tem que estar sempre indo atrás", disse.
Nesta temporada, o homem que eliminou qualquer possibilidade de Gustavo Kuerten tentar a carreira no surfe viu o primeiro título de Thomaz Bellucci no circuito da ATP. Entre os sete brasileiros que já ganharam torneios na elite, é o segundo mais jovem a fazê-lo, superado apenas pelo próprio Guga. Conhecedor dos "atalhozinhos do circuito", Larri Passos aposta no 37º do mundo. "Ele vai ser um tenista completo em dois ou três anos, ainda mais com o saque que tem e sendo canhoto", afirmou o gaúcho.
Veja os melhores momentos da entrevista exclusiva:
Você começou a treinar o Guga desde a adolescência. Ao seu lado, ele ganhou três Roland Garros e foi líder do ranking mundial por 43 semanas. Obviamente, você não depende da forma física para continuar trabalhando, mas o Guga não resistiu e foi obrigado a se aposentar. Ainda causa alguma estranheza vê-lo parado após tantos anos de uma parceria vitoriosa e seguir com a sua carreira?
Na verdade, me dá uma certa tristeza de ver muitas vezes um tênis medíocre sendo jogado e ele não poder estar no Circuito. Muitas vezes, eu olho algumas partidas e me dá vontade de chorar. Chorar de raiva de um tênis mal jogado, jogos ridículos. E tem muito chorão no Circuito hoje. Na época do Guga, as finais eram em melhor de cinco sets. Tinha 64 na chave e as pessoas achavam que ele não tinha preparo físico. Imagina... Hoje, os jogadores têm chaves de 28 (com os quatro principais pré-classificados entrando direto na segunda rodada), outras chaves de 48 (com os 16 principais pré-classificados entrando direto na segunda rodada). O Circuito hoje mudou tudo. Na época, eram dois, três torneios seguidos e com 64 na chave. Às vezes, eu mando e-mail para ele: "Guga, eu vi o jogo do fulano de tal hoje. Pô, Guga! Ele fica...." Outro dia, me perguntaram se ele estaria no topo se estivesse inteiro. Sem dúvida nenhuma. Inteiro, ele seria top 10.
Em boas condições físicas, o espanhol Rafael Nadal é praticamente imbatível no saibro. Se ele jogasse com os tenistas da geração do Guga, como o Alex Corretja, o Thomaz Muster, o Sergi Bruguera, além do próprio Guga, você acha que perderia mais jogos e brilharia um pouco menos?
Naquela época, tinha 16 jogadores de saibro. Agora, tem dois. Na época do Guga, tinha 16! Todos os anos, tinha de oito a dez jogadores que poderiam ganhar Roland Garros. Agora, tem dois. Então, já está respondida a sua pergunta.
Está respondida. Como você imagina uma partida entre o Guga e o Rafael Nadal?
Com o Guga inteiro, acho que seria bem bonito o jogo, seria bem legal. Inteiro e entrando dentro da quadra.... Acho que deu para ter uma palhinha no jogo do Marcos Daniel contra o Nadal, na primeira rodada de Roland Garros. O Nadal sofreu um pouquinho (em 2h23min de jogo, o espanhol ganhou com parciais de 7/5, 6/4 e 6/3). Pena que o Daniel vinha de oito jogos, tinha ganhado o challenger (de Zagreb) e as três rodadas do quali. Ele chegou já meio cansadão no primeiro jogo, mas mesmo assim mostrou um senso tático perfeito contra o Nadal. Nós temos que continuar trabalhando, acho que a imagem do Guga tem que estar na cabeça de todos os jogadores, os juvenis e os técnicos. A forma como ele jogava, entrando na quadra quando tinha que entrar, dando dois passos para trás quando tinha que dar. Ele era completo para mim.
Entre março de 2005 e setembro de 2006, você e o Guga interromperam a parceria. Ele disse que queria trabalhar sozinho e, de repente, você ficou desempregado. Neste período, chegou a receber propostas de outros jogadores?
Na época, fui procurado pelo Murray, fui procurado pelo Djokovic, fui procurado pelo Verdasco, mas existia uma coisa muito forte dentro de mim em relação ao Guga. Agora, eu vou falar claro: eu tinha um sentimento dentro de mim muito forte pelo Guga. Quando ele parou de trabalhar comigo, eu sabia que isso seria uma coisa passageira. Na época, comentei com a minha esposa: "pô, eu não consigo me ver trabalhando com outro homem hoje". Logo em outubro de 2005, a (austríaca) Tamira (Paszek) entrou em contato comigo. A gente tinha tirado uma foto juntos quando ela tinha 14 anos e eu era o ídolo dela como técnico. Na verdade, ainda sou.
Atualmente, o Novak Djokovic é o terceiro do mundo, o Andy Murray é o quarto e o Fernando Verdasco, o oitavo. De alguma forma, você se arrepende por ter recusado essas propostas?
Não, não. De maneira alguma. Eu sou um treinador completamente realizado. Só continuo no esporte porque amo o tênis. Recentemente, eu estava com a Daniela em Montecarlo e encontrei o Murray. Ele olhou para mim dando risada e disse: "this guy could be my coach!" (esse cara poderia ser meu técnico)
Ele poderia ter dito: 'this guy should be my coach...' (esse cara deveria ser o meu técnico)
(risos) A gente é muito amigo, eu converso muito com a mãe dele. Ela me ouve bastante e pede várias dicas. Em Wimbledon, a gente falou bastante. Sou muito amigo dela, inclusive dele também, temos uma relação muito boa. Em 2005, eu estava de férias na Escócia jogando golfe e fui ver o jogo dele juvenil em Roland Garros. Era só eu falar com o pai dele e acertar, que seria o técnico do Murray.
Atualmente, no circuito profissional você treina apenas Daniela Hantuchova. Voltar a trabalhar com um jogador top do circuito masculino faz parte dos seus planos?
Eu amo o tênis, eu amo trabalhar com tênis e sinto uma força muito grande dentro de mim para voltar ao circuito masculino, sem dúvida nenhuma. Eu sinto que ali é meu chão, ali eu gosto, ali eu gosto de brigar, gosto de atropelar. Com mulher, é um pouco diferente, tem que ser mais didático, tem que entrar dentro da cabeça dela, tem que pegar mais no colo. Com os barbados, dá para dar mais porrada. O futuro vai dizer. De repente, alguém de lá de dentro do Instituto... Por exemplo, alguns jogadores juvenis viajam comigo. Eu levei o Tiago Monteiro e o Tiago Fernandes para Wimbledon esse ano. Qual a importância de eu estar no circuito pro fissional? Eu estando no circuito profissional, abro muitas portas para os juvenis. Esse ano, no US Open peguei o (Guilherme) Clezar para treinar com a Daniela, peguei o Tiago Fernandes para treinar com a Daniela.
Você considera sua presença no circuito benéfica para o tênis brasileiro como um todo...
Com o nome que eu tenho hoje, abro muitas portas, porque realmente sinto a importância do Guga. Eu passo na rua e os caras: "Larri, e o Guga?" É bacana isso. Essa imagem lá fora está inserida e não adianta mudar. Eu falei com ele outro dia: "Guga, qualquer projeto que a gente continue fazendo aqui dentro, é cansativo, mas acho que tenho que estar também no exterior trabalhando com jogador profissional". Está abrindo bastante as portas para os jogadores lá fora. Hoje, tem jogadores que já estão despontando em função desse trabalho de levar os juvenis com 15 anos para fora. Não adianta levar um jogador com 18 anos para o Circuito. Tem que levar antes para ele sentir. Tem jogador que às vezes lá fora está ganhando um jogo por 6/4 e 4/0 e começa a sentir. É um trabalho totalmente diferente. Esse trabalho mental que é feito é muito importante. Quem teve um jogador por 43 semanas como número 1 do mundo, tem uma base boa para poder resolver um monte de coisa...
Na época que o Guga estava encerrando a carreira, você disse que o tênis brasileiro colheria os frutos da passagem dele justamente nessa época. Como avalia o atual momento do esporte, após o final da carreira do melhor jogador da história do País?
Eu falei exatamente isso: que a geração pós-Guga está chegando. A geração que nasceu em 1993 está com 16, 17 anos. Quando o Guga ganhou em 1997, essa geração tinha quatro anos, eles viram aquele ídolo lá em cima. Se você falar com um menino desses hoje, ele vai dizer: "eu tinha quatro anos e vi o Guga lá!" Essa geração é muito boa para nós, treinadores, e para a CBT (Confederação Brasileira de Tênis) apostar. Essa geração veio para o tênis trazida por um ídolo. É por isso que o Guga hoje está no tênis e está apostando. Ele tem um trabalho de desenvolvimento, está no bastidor e está trabalhando. Nós temos um projeto junto com a Guga Participações. De vez em quando, aparecem uns jogadores e eles perguntam se esses jovens podem treinar na nossa Academia. É dessa forma que ele pode ajudar. Ele fez agora a Semana Guga Kuerten e no ano que vem tem de novo. Isso vai fazer uma diferença muito grande no futuro, esse é o caminho.
Além de treinar a Hantuchova, você também trabalha com os jovens no seu Instituto. É possível encontrar um "novo Guga" ou você não gosta dessa expressão?
Não, não. Nunca mais. Um cara com o coração tão grande e com a personalidade que ele tem, um cara que não vê maldade em ninguém... Vai ser difícil encontrar outro. Toda vez que eu entro no meu Instituto, sei que aquelas crianças me dão uma energia muito grande. Eu poderia estar morando em Montecarlo, eu poderia estar morando na Suíça, eu poderia estar morando em Bratislava, na Eslováquia, porque a Daniela agora mora lá, mas não tem como me separar do Brasil. Meu projeto vai completar 10 anos em março. A gente vai ajustando a cada ano, porque a criança que estuda na rede pública é muito difícil. Vou tirar alguns meninos do segundo ano fundamental público e colocá-los na escola particular para ver se a gente consegue, através da escola e com bolsas de estudo, nos próximos dez anos anos fazer um jogador profissional lá de dentro. Quem sabe um dia... Eu trabalhei com o Guga desde os 14 anos e ele chegou a ser o número 1 do mundo. Quem sabe eu pego um menino desses com sete anos e ele chega ao número 1 também...
Atualmente, o número 1 do Brasil é o Thomaz Bellucci. Até onde você acha que ele pode chegar?
Eu gosto muito da personalidade dele. É um cara relaxadão, desligado, um cara que bate pesado. Na hora que tem que ir para a paralela, ele vai para a paralela. Não adianta criticar, ele vai ter que fazer isso se quiser chegar lá na frente. Vai ter que ir na paralela, vai ter que pegar forte. É claro que ainda precisa corrigir algumas coisas. Ele e o técnico dele, o João (Zwetsch), meu ex-pupilo, vão ajustar esses detalhes agora que estão full-time (o tempo todo) no circuito da ATP. Tenho certeza que ele vai conseguir ficar. Eu digo ficar um ano entre os 50, entre os 40 para depois subir um pouco mais. A maturidade do jogador mesmo chega aos 24 anos (Bellucci tem 21 anos). Então, precisamos de paciência. Nesse ano, ele teve momentos de turbulência e eu até fui consultado, foi bacana. Eu dei uma força incrível para o João.
Foi o João que procurou por você?
Não foi o João. Foi a equipe do Bellucci. Foi bacana. Eu disse: "vamos continuar trabalhando". A gente teve umas trocas de e-mails que foram bacanas. Acabamos de jantar juntos em Tóquio e isso é uma coisa legal. Quando a CBT poderia ser suspensa e eu ajudei, o Bellucci era juvenil e esteve na Academia. Ele tem as virtudes. E outra coisa: é um cara focado, um cara que não gosta de fazer sacanagem na noite, é regrado, ama o tênis, tem sonhos. Espero que esse casamento dele e do João persevere, o que é importante. Que eles continuem aprendendo juntos no circuito, o que é bacana pra caramba. É claro que tem alguns atalhozinhos que às vezes a gente consegue...
Como assim?
É o caso que eu fui trabalhar com a Tamira. Ela tinha 15 anos e era 400º, depois ganhou título (Portoroz) e no outro ano estava nas oitavas de Wimbledon. Todo mundo perguntou: "o que é isso?" É que a gente tem os atalhozinhos, a gente dá um jeito. Essa relação técnico-jogador é muito importante e muito bacana. O João e o Bellucci têm que já preparar bem uma estratégia de final de ano e fortalecer bem, porque o Circuito é muito duro. Tem que fazer uma boa pré-temporada, com sacrifício e fortalecimento físico, além de ajustar bem os golpes para o ano que vem.
Desde que o Bellucci começou a jogar os torneios da ATP, vem tendo algumas dificuldades para fechar as partidas. Se ele for submetido a um trabalho mais intenso na parte mental, acha que pode ganhar significativamente em termos de resultados?
Olha, o (Pete) Sampras, o (André) Agassi e o (Ivan) Lendl tinham problemas para fechar. Todo mundo tem. É aquele momento que você chega e diz assim: "eu vou para o ace, eu vou sacar aberto, eu vou dar um (saque) quique, eu vou fazer isso, vou atacar o cara". Tem que ter suas estratégias. Isso fica entre o técnico e o jogador. Por exemplo: eu com o Guga não era uma, duas nem três, às vezes eram muitas vezes que a gente analisava o jogador. Esse detalhezinho daqui para frente vai ser acertado. O que vai ser feito? Onde você vai jogar aquela bola? O que você vai fazer? Esse é o ponto importante, onde é que você vai colocar aquela bola? Tudo isso é o Circuito que ensina. Todo mundo fica ansioso, e o que fazer depende da estratégia entre o técnico e o jogador. Eu gosto porque o Bellucci é agressivo. Para mim, você pode até perder o jogo pela agressividade, não pode perder por omissão.
Com o Guga, você também ouvia críticas desse tipo...
O Guga dava uma paralela que saía dois centímetros da quadra e o cara dizia: "aquele louco deu paralela e tem que ir no psicólogo!" Muitas vezes eu ouvi isso: "você devia ter mandado colocar a bola em jogo". Eu falava: "mandar colocar a bola em jogo é chamar o cara de covarde". Tudo isso é uma questão de tempo, de amadurecimento. O Lendl era um cara tenso antes do jogo, dentro do vestiário ele caminhava pra lá e pra cá. Ele descarregava a energia na quadra. O Agassi também era inquieto dentro do vestiário. Todo mundo tem essa ansiedade, porque é um esporte individual e você tem que decidir, você está com o pênalti o tempo todo na sua mão. Isso é completamente normal. Pode ajustar? Pode. Sempre tem que ajustar alguma coisa. É o dia a dia, a semana toda. Acorda de manhã e pensa: vou jogar com aquele adversário, hoje não vou poder jogar só aquela bola, vou ter que fazer mais duas bolas. Isso é entre o técnico e o jogador.
Entre os sete brasileiros que já ganharam torneios da ATP em toda a história, o Bellucci é o segundo mais jovem, perdendo apenas para o Guga. Você vê potencial nele para conquistar Masters e chegar nas fases decisivas dos torneios do Grand Slam?
Só dou um conselho para os dois (Zwetsch e Bellucci): fiquem no agora. Ficar no agora é ficar dentro da situação, com os pés no chão e dentro da realidade. Vendo o dia a dia e ajustando os detalhes que vão fazer a diferença. Os detalhes vão fazer a diferença na carreira do João e do Bellucci. Quem diria que um dia o Guga ganharia o Masters de Lisboa? Ganharia do (Yevgeny) Kafelnikov, do Sampras e do Agassi? Todo mundo hoje olha para trás e diz: "meu Deus, ele ganhou desses caras todos!" Mas por quê? A gente não estava lá na frente, no futuro, e também não estava no passado. A gente estava no agora. Desde o primeiro titulo de Roland Garros, a gente disse: "vamos continuar os mesmos". Outra coisa: não pensar muito em números e curtir esse momento. Cada bola pesada a mais que entrar lá no fundo, cada adversário que sofre, ganhar o respeito dos demais. Quem sabe, por exemplo, o Bellucci não puxa esses juvenis de 16 anos? O Marcos Daniel está com 31 anos e chegou a 56º do mundo esse ano. É um exemplo também bacana. Esses jogadores que estão aí têm uma responsabilidade de puxar os juvenis.
Depois de ganhar o primeiro ATP da carreira no saibro em Gstaad, o Bellucci tenta se adaptar ao piso rápido. Em Estocolmo, ele chegou até a semifinal (foi derrotado pelo belga Olivier Rochus com parciais de 7/6 (7-4), 4/6 e 6/3). Você e o Guga ganharam o primeiro torneio fora do saibro em 2000. Imagino que o treinador seja bem importante nesse processo...
Em 1997, o Guga jogava tão mal em dura, que foi campeão de Roland Garros (venceu o espanhol Sergi Bruguera), finalista em Montreal (perdeu do norte-americano Chris Woodruff) e chegou nas quartas em Cincinatti (derrotado pelo norte-americano Michael Chang). Olha o passado... Eu estava em Cincinatti agora, ele é um dos que tem melhores marcas no torneio. Tem duas quartas, uma semi e um título. E diziam que ele não jogava em quadra dura... Meus amigos, não existe mais hoje saibro, piso duro, piso de grama... Hoje o piso duro está mais lento e dá para jogar, o piso de saibro tem que melhorar a condição aeróbica. Três semanas antes, tem que estar preparado. Se tiver que meter 20 bolas, vai ter que meter. Não tem mais essa de cara especializado nisso ou naquilo. Não existe mais.
As críticas ao desempenho do Guga em quadra rápida te deixavam irritado?
Eu dava risada em 1997 quando diziam que o Guga não sabia jogar em rápida. Ele fez final em Montreal, ganhou do Chang (então número 2 do mundo) lá por 6/3 e 6/1. Ele chegou ao top 10 e eu me lembro bem, estava lá em cima na tribuna. Como podiam dizer isso? (Dos 20 títulos de Guga, seis foram na quadra rápida. Ele encerrou a carreira com 147 vitórias e 89 derrotas neste piso). É a mesma coisa para o Bellucci. Ele pode jogar em saibro, em dura. O que ele tem que ajustar? Ele vai ajustar um pouco mais a cabeça da raquete, no saibro vai fechar um pouquinho mais, o peso da bola dele vai ficar cada vez maior. Ele vai jogar bem em grama, em saibro e em dura. Não vejo problema nenhum. Grama, então, está uma piada, está muito lento. Hoje, é completamente diferente. Antes, a quadra central do US Open era gelo. Outro dia, o Guga comentou comigo: "Porra, Larri! Está muito lenta a quadra". As bolas estão lentas. Então, hoje dá para jogar. Tem que treinar, tem que trabalhar, tem que fortalecer e ajustar para cada tipo de jogo. Eu não vejo problema nenhum.
Em 1997, o Guga ganhou os dois jogos que realizou contra o Agassi, por sinal ambos foram no piso rápido. Ele confessou que usou substâncias proibidas justamente nessa temporada e ainda explicou como enganou a ATP. Como você recebeu essas revelações?
Eu não li, não sei o que ele declarou. Prefiro olhar e ver a imagem dele indo no meu vestiário em Lisboa e me cumprimentando pelo Guga ser o número 1 do mundo. Vou ficar com essa imagem aí.
Você trabalha muito com jogadores jovens. Costuma falar sobre esse assunto com os tenistas em início de carreira?
Nossa.... eu falo muito, muito, muito. Recentemente, a Daniela jogou a final de duplas no Japão e estávamos com a (norte-americana Liezel) Huber e a (zimbabuense Cara) Black (líderes do ranking de duplas) conversando. Surgiu o assunto "drogas" e elas perguntaram a minha opinião. Eu respondi: "não toquem". Nas reuniões com as crianças e com as pessoas, minha opinião é muito clara: não toquem, não provem, porque ela mata. O tratamento no meu Instituto é choque. Quando eles entram, eu converso muito e a gente tem palestras lá dentro. As pessoas comentam que fulano de tal tem no Orkut a seguinte mensagem: "graças ao tio Larri, eu estou aqui". E o pai cheira cocaína, o pai é alcoólatra. Isso é muito bacana. A minha concepção é a seguinte: não consumam. A maneira de acabar com a droga é a educação dentro da escola, dentro da família. Na minha trajetória, eu dei de cara com a droga.
Chegaram a te oferecer algum tipo de droga?
Lógico! Aconteceu depois de adulto também, nas viagens, em qualquer lugar. É muito bacana a pessoa vir te oferecer e você responder: "meu amigo, não quero". Você pode dizer: "eu não peguei, eu não toquei". Acho que quem ama o esporte, está no esporte e está ali vivenciando, a pessoa diz assim... Tem alguns que são a favor da droga recreativa. Mas que droga recreativa é essa? Droga recreativa não existe, pô! A melhor droga recreativa é meu chimarrão de manhã que me deixa triligado. Eu adoro chimarrão. Um cara que é esportista, tem que passar essa energia e tem que respeitar... Droga recreativa!? Vai num jantar com sua namorada, senta, toma um copo de vinho, relaxa, brinca, dá risada. É a maneira mais legal que tem. A droga para mim é bem clara: não toca!
Além da confissão do Agassi, recentemente também teve aquele caso controverso do francês Richard Gasquet com cocaína. Se o jogador quer, é algo que ele encontra fácil pelo estilo de vida que tem durante a temporada?
Só uma pergunta: em relação ao Gustavo Kuerten, você ouviu alguma vez falar de droga? Não. A questão é a seguinte: quem está ao lado desses jogadores, tem que ter... Uma vez eu fui conversar com os dirigentes do Internacional. Eles perguntaram como era essa coisa de ter estado do lado do Guga. Eu disse: "vocês têm que pegar o meu exemplo com o Guga de estar com ele o tempo todo, ficar amigo, estar meio paizão dele". Tem que ver esse exemplo. É muito fácil dentro de um clube de futebol você ter pessoas para ficar ao lado desses jovens e não deixá-los no alojamento sozinhos. Acho que esse desvio de conduta que o cara dá quando chega ao topo não foi ali, foi lá embaixo. É a dor corporal que ele não conseguiu se desvencilhar quando era mais moço. O pessoal sempre perguntava para o Guga: "tu não sente pressão ?". Mas que pressão é essa de jogar o torneio e dormir num hotel cinco estrelas? Quem tem pressão é um cara desempregado e com cinco filhos! Até hoje, dizem que ele foi o número 1 mais feliz do mundo. É bacana isso...
Você é conhecido como um treinador muito rigoroso e disciplinador. Em relação ao seu trabalho com o Guga, quanto foi inspiração e quanto foi transpiração?
Quando eu conheci o Guga, não achava a técnica dele boa, mas vi um raciocínio muito rápido. Tive que entrar dentro da cabeça dele para ver essas coisas. Ele era completamente desligado, um cara que tinha dificuldade para correr, problemas de coordenação. Nos últimos dez anos, muitos jogadores pararam antes do tempo simplesmente por não ter aquele algo mais de dizer: "eu quero me trancar no quarto, quero ter minha rotina". Se você quiser ser um campeão, precisa de uma rotina difícil, ainda mais quando tem muitos atrativos ao redor. Eu faço uma pergunta para ti: se o Guga tivesse ficado em Florianópolis, ele seria surfista ou jogador de tênis?
Ele poderia ficar pegando onda e torcendo para o Avaí...
Mas teve um cara louco que pegou ele e disse: "tu vai ter que vir para Balneário Camboriú, vai ter que morar aqui nesse apartamentinho, vai dormir aqui nesse quarto, vai acordar de manhã, nós vamos para a quadra e é isso aí". A tendência era ser mais surfista do que tenista. Tem que ter aquele algo mais. Essa era a grande diferença. No começo, ele foi transpiração. Depois, quando já tinha seus 22, 23 anos, foi a transpiração com inspiração. O Guga pensava: "o Larri é meu ídolo, vou abraçar o que ele falar". Foi isso que aconteceu.
Sua atual pupila é a Daniela Hantuchova. Ela já ocupou o quinto lugar tanto do ranking de simples quanto do ranking de duplas. Com ela, você acha que pode voltar a ganhar um Grand Slam?
Na nossa primeira conversa, eu disse que para ficar entre as 30 do mundo, ela não precisava de mim. Mas ela falou que o objetivo era chegar ao topo de novo. Quando começamos a trabalhar, fiquei apavorado. Ela estava sem confiança, sem físico, fraca de perna, fraca de cabeça. Eu peguei uma batata fervendo na mão. Tinha uma semana até o começo do circuito de saibro na Europa, mas foi excelente. Ela está recuperando a confiança, mudou bastante o jogo e está jogando bem. A gente tem um contrato temporário de 20 semanas por ano. No final do ano, ela falou: "queria que você tivesse comigo 365 dias". Mas é impossível. Quando ela apareceu, era uma jovem muito bonita e esguia. Acabaram gerando muita expectativa e isso pesou um pouco na carreira dela. A gente fala muito disso e trabalha bastante a parte mental. Ela está mais alegre, está sorrindo mais. Ela tem condições de ganhar um Grand Slam, sem dúvida nenhuma. Acho que pode chegar até o top 10. Ela tem tênis para chegar e estamos ajustando o jogo dela.
A dinamarquesa Caroline Wozniacki despertou suspeitas de favorecer apostadores ao abandonar um jogo no Torneio de Luxemburgo. Você desconfia de alguma armação?
Não estou sabendo de nada disso.
Além de voltar a treinar um top masculino, você tem mais algum plano para o futuro? Gostaria de participar da equipe brasileira na Davis ou ocupar um cargo na Confederação Brasileira de Tênis?
Eu trabalhei três anos na Copa Davis e minhas lembranças são excelentes. Tenho grandes memórias da competição. No ano passado, posso dizer que ajudei. Eu estive contra a Colômbia e orientei um pouco. Quando o Chico Costa entrou na comissão, pediram minha opinião e ajudei bastante, mas nesse ano eu desliguei total. Eu ajudo apenas o Marcos Daniel, que é um amigo. Esse ano, não fui consultado e prefiro ficar bem à parte. Hoje, tenho bastante coisa: minha família, o Instituto Larri Passos, tem a Academia, a Daniela, tenho muita coisa para fazer. Preciso reconstruir minha Academia, que foi destruída pela enchente. Tenho que me virar. Não passa pela minha cabeça ser capitão da equipe a curto prazo.
O espanhol Emílio Sánchez Vicário, atual campeão da Copa Davis, é o coordenador do tênis brasileiro. Como você avalia o trabalho dele até o momento?
Não conheço o trabalho dele. O que ele faz aqui dentro, eu não conheço.
É desagradável ver um estrangeiro que mora fora do País nesse cargo?
Não me dá nada. Não sou eu que pago ele, né?
Para terminar, algumas perguntas de bate-pronto. Qual foi o melhor momento de toda sua carreira com o Guga?
O que mudou minha vida foi 1997 (Roland Garros), sem dúvida nenhuma. Mudou a minha vida e tenho que ressaltar, mas a maior alegria realmente foi Lisboa (Masters Cup), quando ele chegou ao numero 1 do mundo.
E o momento mais triste?
O mais difícil? O mais duro para mim foi quando ele perdeu o irmão (Guilherme Kuerten sofria de paralisia cerebral e morreu em novembro de 2007). Ele me ligou chorando. Eu estava na Academia, peguei o jipe e saí correndo. Passei as seguintes 24 horas ao lado dele, segurando a onda dele, apesar de já ter preparado muito ele para esse momento. Acho que foi o mais difícil para nós dois, porque nós tínhamos no irmão a nossa referência, a nossa alegria. Quando a gente via ele e ele nos via, ele ria muito. Então, foi um momento bastante duro. Eu saí correndo de jipe e quase bati, perdi completamente a noção. Preparei ele por bastante tempo, mas foi muito duro.
O Guga é o melhor tenista brasileiro de todos os tempos. Foi um jogador sem precedentes entre os homens do País. Você se considera fora de série na mesma medida entre os treinadores?
Vou te responder o seguinte: eu não olho para o lado, eu olho para a frente e tento ser melhor do que eu mesmo todos os dias. Tento me desafiar todos os dias, tento ser melhor do que eu mesmo. Não tenho ego, brigo muito com ele, tento sempre ficar no consciente. Quando ele vem e quer se apoderar de mim, eu não deixo. Sai daqui, quem manda sou eu, estou no agora, estou aqui. Até porque eu tenho crianças doentes, tenho crianças que tenho que ter paciência, tenho crianças que tenho que beijar e carregar no colo. Isso me ensina muito. Tento ser melhor do que eu mesmo todos os dias.
Uma curiosidade para terminar. Em alguns momentos da entrevista, você me lembrou um pouco o técnico Dunga. De alguma forma, se acha parecido com ele?
Quando o Dunga assumiu a seleção, a gente estava na Bahia e conversou bastante, trocou bastante ideia. Foi bacana e torço muito por ele. É um cara honesto, um cara trabalhador, um cara sincero. Assim como eu tinha, ele tem uma pressão muito grande por estar trabalhando com o melhor time do mundo, sem dúvida nenhuma. Acho que o trabalho mais importante do Dunga é fazer os caras se doarem para a seleção brasileira, mais do que simplesmente jogar futebol. Com o talento que o Brasil tem, se os caras se doarem, o time fica imbatível. Acho que ele encarna muito o meu espírito de brasileiro, meu espírito de amar o Brasil, tanto é que vive até hoje no Rio Grande do Sul. Ele tem esse espírito brasileiro. Acho que a posição dele na seleção é incontestável.
Você costuma acompanhar o trabalho dos treinadores de outras modalidades?
Esse ano, eu passei bastante tempo fora do Brasil e fiquei muito distante deles. Minha relação com o Zé Roberto (Guimarães, da seleção feminina de vôlei) é muito legal. Eu admiro o trabalho dele pra caramba. Tinha mais contato com ele por minha esposa ser jornalista. Nas Olimpíadas, até me emocionei quando ele ganhou. Chorei muito, porque sei o quanto ele batalhou para ganhar aquela medalha. E outra coisa: tenho muita admiração porque ele trabalha com 12 mulheres. Se trabalhar com uma já é difícil, trabalhar com 12 é mais complicado ainda. Sempre digo a ele: "a gente não trabalha com mulher, a gente trabalha com os hormônios" (risos). Eu tenho uma admiração muito grande por esses técnicos. O Muricy Ramalho, por exemplo, também tive bastante contato com ele no Internacional. Uma vez, ele me liberou o vestiário e a gente conversou bastante com os jogadores. Foi muito bacana, mas não tenho tido tempo para acompanhar mais de perto.
"Eu fui procurado. Não vou negar. Agora, posso falar", revelou o treinador em uma longa e franca entrevista à GE.Net. Hoje com 22 anos, Djokovic tem 14 títulos, entre eles a Masters Cup-2008 e o Aberto da Austrália-2008. Murray nasceu no mesmo ano de 1987 e contabiliza 13 taças, quatro de Masters, além do vice-campeonato do Aberto dos Estados Unidos-2008. Em 2005, o sérvio encerrou a temporada como 78º do mundo e o escocês, como 64º. No ano seguinte, eles ganharam seus primeiros torneios e se aproximaram do topo da lista.
Atual treinador da eslovaca Daniela Hantuchova, tenista com a qual espera voltar a conquistar um Grand Slam, Larri Passos garante não se arrepender por recusar os convites de alguns dos melhores tenistas da atualidade. No entanto, ele avisa que tem vontade de voltar ao circuito masculino e desdenha do nível dos torneios. Em seu Instituto na cidade de Balneário Camboriú, o gaúcho sonha encontrar um novo número 1 do mundo. "Quem ama o tênis, vive de utopia. A gente tem que estar sempre indo atrás", disse.
Nesta temporada, o homem que eliminou qualquer possibilidade de Gustavo Kuerten tentar a carreira no surfe viu o primeiro título de Thomaz Bellucci no circuito da ATP. Entre os sete brasileiros que já ganharam torneios na elite, é o segundo mais jovem a fazê-lo, superado apenas pelo próprio Guga. Conhecedor dos "atalhozinhos do circuito", Larri Passos aposta no 37º do mundo. "Ele vai ser um tenista completo em dois ou três anos, ainda mais com o saque que tem e sendo canhoto", afirmou o gaúcho.
Veja os melhores momentos da entrevista exclusiva:
Você começou a treinar o Guga desde a adolescência. Ao seu lado, ele ganhou três Roland Garros e foi líder do ranking mundial por 43 semanas. Obviamente, você não depende da forma física para continuar trabalhando, mas o Guga não resistiu e foi obrigado a se aposentar. Ainda causa alguma estranheza vê-lo parado após tantos anos de uma parceria vitoriosa e seguir com a sua carreira?
Na verdade, me dá uma certa tristeza de ver muitas vezes um tênis medíocre sendo jogado e ele não poder estar no Circuito. Muitas vezes, eu olho algumas partidas e me dá vontade de chorar. Chorar de raiva de um tênis mal jogado, jogos ridículos. E tem muito chorão no Circuito hoje. Na época do Guga, as finais eram em melhor de cinco sets. Tinha 64 na chave e as pessoas achavam que ele não tinha preparo físico. Imagina... Hoje, os jogadores têm chaves de 28 (com os quatro principais pré-classificados entrando direto na segunda rodada), outras chaves de 48 (com os 16 principais pré-classificados entrando direto na segunda rodada). O Circuito hoje mudou tudo. Na época, eram dois, três torneios seguidos e com 64 na chave. Às vezes, eu mando e-mail para ele: "Guga, eu vi o jogo do fulano de tal hoje. Pô, Guga! Ele fica...." Outro dia, me perguntaram se ele estaria no topo se estivesse inteiro. Sem dúvida nenhuma. Inteiro, ele seria top 10.
Em boas condições físicas, o espanhol Rafael Nadal é praticamente imbatível no saibro. Se ele jogasse com os tenistas da geração do Guga, como o Alex Corretja, o Thomaz Muster, o Sergi Bruguera, além do próprio Guga, você acha que perderia mais jogos e brilharia um pouco menos?
Naquela época, tinha 16 jogadores de saibro. Agora, tem dois. Na época do Guga, tinha 16! Todos os anos, tinha de oito a dez jogadores que poderiam ganhar Roland Garros. Agora, tem dois. Então, já está respondida a sua pergunta.
Está respondida. Como você imagina uma partida entre o Guga e o Rafael Nadal?
Com o Guga inteiro, acho que seria bem bonito o jogo, seria bem legal. Inteiro e entrando dentro da quadra.... Acho que deu para ter uma palhinha no jogo do Marcos Daniel contra o Nadal, na primeira rodada de Roland Garros. O Nadal sofreu um pouquinho (em 2h23min de jogo, o espanhol ganhou com parciais de 7/5, 6/4 e 6/3). Pena que o Daniel vinha de oito jogos, tinha ganhado o challenger (de Zagreb) e as três rodadas do quali. Ele chegou já meio cansadão no primeiro jogo, mas mesmo assim mostrou um senso tático perfeito contra o Nadal. Nós temos que continuar trabalhando, acho que a imagem do Guga tem que estar na cabeça de todos os jogadores, os juvenis e os técnicos. A forma como ele jogava, entrando na quadra quando tinha que entrar, dando dois passos para trás quando tinha que dar. Ele era completo para mim.
Entre março de 2005 e setembro de 2006, você e o Guga interromperam a parceria. Ele disse que queria trabalhar sozinho e, de repente, você ficou desempregado. Neste período, chegou a receber propostas de outros jogadores?
Na época, fui procurado pelo Murray, fui procurado pelo Djokovic, fui procurado pelo Verdasco, mas existia uma coisa muito forte dentro de mim em relação ao Guga. Agora, eu vou falar claro: eu tinha um sentimento dentro de mim muito forte pelo Guga. Quando ele parou de trabalhar comigo, eu sabia que isso seria uma coisa passageira. Na época, comentei com a minha esposa: "pô, eu não consigo me ver trabalhando com outro homem hoje". Logo em outubro de 2005, a (austríaca) Tamira (Paszek) entrou em contato comigo. A gente tinha tirado uma foto juntos quando ela tinha 14 anos e eu era o ídolo dela como técnico. Na verdade, ainda sou.
Atualmente, o Novak Djokovic é o terceiro do mundo, o Andy Murray é o quarto e o Fernando Verdasco, o oitavo. De alguma forma, você se arrepende por ter recusado essas propostas?
Não, não. De maneira alguma. Eu sou um treinador completamente realizado. Só continuo no esporte porque amo o tênis. Recentemente, eu estava com a Daniela em Montecarlo e encontrei o Murray. Ele olhou para mim dando risada e disse: "this guy could be my coach!" (esse cara poderia ser meu técnico)
Ele poderia ter dito: 'this guy should be my coach...' (esse cara deveria ser o meu técnico)
(risos) A gente é muito amigo, eu converso muito com a mãe dele. Ela me ouve bastante e pede várias dicas. Em Wimbledon, a gente falou bastante. Sou muito amigo dela, inclusive dele também, temos uma relação muito boa. Em 2005, eu estava de férias na Escócia jogando golfe e fui ver o jogo dele juvenil em Roland Garros. Era só eu falar com o pai dele e acertar, que seria o técnico do Murray.
Atualmente, no circuito profissional você treina apenas Daniela Hantuchova. Voltar a trabalhar com um jogador top do circuito masculino faz parte dos seus planos?
Eu amo o tênis, eu amo trabalhar com tênis e sinto uma força muito grande dentro de mim para voltar ao circuito masculino, sem dúvida nenhuma. Eu sinto que ali é meu chão, ali eu gosto, ali eu gosto de brigar, gosto de atropelar. Com mulher, é um pouco diferente, tem que ser mais didático, tem que entrar dentro da cabeça dela, tem que pegar mais no colo. Com os barbados, dá para dar mais porrada. O futuro vai dizer. De repente, alguém de lá de dentro do Instituto... Por exemplo, alguns jogadores juvenis viajam comigo. Eu levei o Tiago Monteiro e o Tiago Fernandes para Wimbledon esse ano. Qual a importância de eu estar no circuito pro fissional? Eu estando no circuito profissional, abro muitas portas para os juvenis. Esse ano, no US Open peguei o (Guilherme) Clezar para treinar com a Daniela, peguei o Tiago Fernandes para treinar com a Daniela.
Você considera sua presença no circuito benéfica para o tênis brasileiro como um todo...
Com o nome que eu tenho hoje, abro muitas portas, porque realmente sinto a importância do Guga. Eu passo na rua e os caras: "Larri, e o Guga?" É bacana isso. Essa imagem lá fora está inserida e não adianta mudar. Eu falei com ele outro dia: "Guga, qualquer projeto que a gente continue fazendo aqui dentro, é cansativo, mas acho que tenho que estar também no exterior trabalhando com jogador profissional". Está abrindo bastante as portas para os jogadores lá fora. Hoje, tem jogadores que já estão despontando em função desse trabalho de levar os juvenis com 15 anos para fora. Não adianta levar um jogador com 18 anos para o Circuito. Tem que levar antes para ele sentir. Tem jogador que às vezes lá fora está ganhando um jogo por 6/4 e 4/0 e começa a sentir. É um trabalho totalmente diferente. Esse trabalho mental que é feito é muito importante. Quem teve um jogador por 43 semanas como número 1 do mundo, tem uma base boa para poder resolver um monte de coisa...
Na época que o Guga estava encerrando a carreira, você disse que o tênis brasileiro colheria os frutos da passagem dele justamente nessa época. Como avalia o atual momento do esporte, após o final da carreira do melhor jogador da história do País?
Eu falei exatamente isso: que a geração pós-Guga está chegando. A geração que nasceu em 1993 está com 16, 17 anos. Quando o Guga ganhou em 1997, essa geração tinha quatro anos, eles viram aquele ídolo lá em cima. Se você falar com um menino desses hoje, ele vai dizer: "eu tinha quatro anos e vi o Guga lá!" Essa geração é muito boa para nós, treinadores, e para a CBT (Confederação Brasileira de Tênis) apostar. Essa geração veio para o tênis trazida por um ídolo. É por isso que o Guga hoje está no tênis e está apostando. Ele tem um trabalho de desenvolvimento, está no bastidor e está trabalhando. Nós temos um projeto junto com a Guga Participações. De vez em quando, aparecem uns jogadores e eles perguntam se esses jovens podem treinar na nossa Academia. É dessa forma que ele pode ajudar. Ele fez agora a Semana Guga Kuerten e no ano que vem tem de novo. Isso vai fazer uma diferença muito grande no futuro, esse é o caminho.
Além de treinar a Hantuchova, você também trabalha com os jovens no seu Instituto. É possível encontrar um "novo Guga" ou você não gosta dessa expressão?
Não, não. Nunca mais. Um cara com o coração tão grande e com a personalidade que ele tem, um cara que não vê maldade em ninguém... Vai ser difícil encontrar outro. Toda vez que eu entro no meu Instituto, sei que aquelas crianças me dão uma energia muito grande. Eu poderia estar morando em Montecarlo, eu poderia estar morando na Suíça, eu poderia estar morando em Bratislava, na Eslováquia, porque a Daniela agora mora lá, mas não tem como me separar do Brasil. Meu projeto vai completar 10 anos em março. A gente vai ajustando a cada ano, porque a criança que estuda na rede pública é muito difícil. Vou tirar alguns meninos do segundo ano fundamental público e colocá-los na escola particular para ver se a gente consegue, através da escola e com bolsas de estudo, nos próximos dez anos anos fazer um jogador profissional lá de dentro. Quem sabe um dia... Eu trabalhei com o Guga desde os 14 anos e ele chegou a ser o número 1 do mundo. Quem sabe eu pego um menino desses com sete anos e ele chega ao número 1 também...
Atualmente, o número 1 do Brasil é o Thomaz Bellucci. Até onde você acha que ele pode chegar?
Eu gosto muito da personalidade dele. É um cara relaxadão, desligado, um cara que bate pesado. Na hora que tem que ir para a paralela, ele vai para a paralela. Não adianta criticar, ele vai ter que fazer isso se quiser chegar lá na frente. Vai ter que ir na paralela, vai ter que pegar forte. É claro que ainda precisa corrigir algumas coisas. Ele e o técnico dele, o João (Zwetsch), meu ex-pupilo, vão ajustar esses detalhes agora que estão full-time (o tempo todo) no circuito da ATP. Tenho certeza que ele vai conseguir ficar. Eu digo ficar um ano entre os 50, entre os 40 para depois subir um pouco mais. A maturidade do jogador mesmo chega aos 24 anos (Bellucci tem 21 anos). Então, precisamos de paciência. Nesse ano, ele teve momentos de turbulência e eu até fui consultado, foi bacana. Eu dei uma força incrível para o João.
Foi o João que procurou por você?
Não foi o João. Foi a equipe do Bellucci. Foi bacana. Eu disse: "vamos continuar trabalhando". A gente teve umas trocas de e-mails que foram bacanas. Acabamos de jantar juntos em Tóquio e isso é uma coisa legal. Quando a CBT poderia ser suspensa e eu ajudei, o Bellucci era juvenil e esteve na Academia. Ele tem as virtudes. E outra coisa: é um cara focado, um cara que não gosta de fazer sacanagem na noite, é regrado, ama o tênis, tem sonhos. Espero que esse casamento dele e do João persevere, o que é importante. Que eles continuem aprendendo juntos no circuito, o que é bacana pra caramba. É claro que tem alguns atalhozinhos que às vezes a gente consegue...
Como assim?
É o caso que eu fui trabalhar com a Tamira. Ela tinha 15 anos e era 400º, depois ganhou título (Portoroz) e no outro ano estava nas oitavas de Wimbledon. Todo mundo perguntou: "o que é isso?" É que a gente tem os atalhozinhos, a gente dá um jeito. Essa relação técnico-jogador é muito importante e muito bacana. O João e o Bellucci têm que já preparar bem uma estratégia de final de ano e fortalecer bem, porque o Circuito é muito duro. Tem que fazer uma boa pré-temporada, com sacrifício e fortalecimento físico, além de ajustar bem os golpes para o ano que vem.
Desde que o Bellucci começou a jogar os torneios da ATP, vem tendo algumas dificuldades para fechar as partidas. Se ele for submetido a um trabalho mais intenso na parte mental, acha que pode ganhar significativamente em termos de resultados?
Olha, o (Pete) Sampras, o (André) Agassi e o (Ivan) Lendl tinham problemas para fechar. Todo mundo tem. É aquele momento que você chega e diz assim: "eu vou para o ace, eu vou sacar aberto, eu vou dar um (saque) quique, eu vou fazer isso, vou atacar o cara". Tem que ter suas estratégias. Isso fica entre o técnico e o jogador. Por exemplo: eu com o Guga não era uma, duas nem três, às vezes eram muitas vezes que a gente analisava o jogador. Esse detalhezinho daqui para frente vai ser acertado. O que vai ser feito? Onde você vai jogar aquela bola? O que você vai fazer? Esse é o ponto importante, onde é que você vai colocar aquela bola? Tudo isso é o Circuito que ensina. Todo mundo fica ansioso, e o que fazer depende da estratégia entre o técnico e o jogador. Eu gosto porque o Bellucci é agressivo. Para mim, você pode até perder o jogo pela agressividade, não pode perder por omissão.
Com o Guga, você também ouvia críticas desse tipo...
O Guga dava uma paralela que saía dois centímetros da quadra e o cara dizia: "aquele louco deu paralela e tem que ir no psicólogo!" Muitas vezes eu ouvi isso: "você devia ter mandado colocar a bola em jogo". Eu falava: "mandar colocar a bola em jogo é chamar o cara de covarde". Tudo isso é uma questão de tempo, de amadurecimento. O Lendl era um cara tenso antes do jogo, dentro do vestiário ele caminhava pra lá e pra cá. Ele descarregava a energia na quadra. O Agassi também era inquieto dentro do vestiário. Todo mundo tem essa ansiedade, porque é um esporte individual e você tem que decidir, você está com o pênalti o tempo todo na sua mão. Isso é completamente normal. Pode ajustar? Pode. Sempre tem que ajustar alguma coisa. É o dia a dia, a semana toda. Acorda de manhã e pensa: vou jogar com aquele adversário, hoje não vou poder jogar só aquela bola, vou ter que fazer mais duas bolas. Isso é entre o técnico e o jogador.
Entre os sete brasileiros que já ganharam torneios da ATP em toda a história, o Bellucci é o segundo mais jovem, perdendo apenas para o Guga. Você vê potencial nele para conquistar Masters e chegar nas fases decisivas dos torneios do Grand Slam?
Só dou um conselho para os dois (Zwetsch e Bellucci): fiquem no agora. Ficar no agora é ficar dentro da situação, com os pés no chão e dentro da realidade. Vendo o dia a dia e ajustando os detalhes que vão fazer a diferença. Os detalhes vão fazer a diferença na carreira do João e do Bellucci. Quem diria que um dia o Guga ganharia o Masters de Lisboa? Ganharia do (Yevgeny) Kafelnikov, do Sampras e do Agassi? Todo mundo hoje olha para trás e diz: "meu Deus, ele ganhou desses caras todos!" Mas por quê? A gente não estava lá na frente, no futuro, e também não estava no passado. A gente estava no agora. Desde o primeiro titulo de Roland Garros, a gente disse: "vamos continuar os mesmos". Outra coisa: não pensar muito em números e curtir esse momento. Cada bola pesada a mais que entrar lá no fundo, cada adversário que sofre, ganhar o respeito dos demais. Quem sabe, por exemplo, o Bellucci não puxa esses juvenis de 16 anos? O Marcos Daniel está com 31 anos e chegou a 56º do mundo esse ano. É um exemplo também bacana. Esses jogadores que estão aí têm uma responsabilidade de puxar os juvenis.
Depois de ganhar o primeiro ATP da carreira no saibro em Gstaad, o Bellucci tenta se adaptar ao piso rápido. Em Estocolmo, ele chegou até a semifinal (foi derrotado pelo belga Olivier Rochus com parciais de 7/6 (7-4), 4/6 e 6/3). Você e o Guga ganharam o primeiro torneio fora do saibro em 2000. Imagino que o treinador seja bem importante nesse processo...
Em 1997, o Guga jogava tão mal em dura, que foi campeão de Roland Garros (venceu o espanhol Sergi Bruguera), finalista em Montreal (perdeu do norte-americano Chris Woodruff) e chegou nas quartas em Cincinatti (derrotado pelo norte-americano Michael Chang). Olha o passado... Eu estava em Cincinatti agora, ele é um dos que tem melhores marcas no torneio. Tem duas quartas, uma semi e um título. E diziam que ele não jogava em quadra dura... Meus amigos, não existe mais hoje saibro, piso duro, piso de grama... Hoje o piso duro está mais lento e dá para jogar, o piso de saibro tem que melhorar a condição aeróbica. Três semanas antes, tem que estar preparado. Se tiver que meter 20 bolas, vai ter que meter. Não tem mais essa de cara especializado nisso ou naquilo. Não existe mais.
As críticas ao desempenho do Guga em quadra rápida te deixavam irritado?
Eu dava risada em 1997 quando diziam que o Guga não sabia jogar em rápida. Ele fez final em Montreal, ganhou do Chang (então número 2 do mundo) lá por 6/3 e 6/1. Ele chegou ao top 10 e eu me lembro bem, estava lá em cima na tribuna. Como podiam dizer isso? (Dos 20 títulos de Guga, seis foram na quadra rápida. Ele encerrou a carreira com 147 vitórias e 89 derrotas neste piso). É a mesma coisa para o Bellucci. Ele pode jogar em saibro, em dura. O que ele tem que ajustar? Ele vai ajustar um pouco mais a cabeça da raquete, no saibro vai fechar um pouquinho mais, o peso da bola dele vai ficar cada vez maior. Ele vai jogar bem em grama, em saibro e em dura. Não vejo problema nenhum. Grama, então, está uma piada, está muito lento. Hoje, é completamente diferente. Antes, a quadra central do US Open era gelo. Outro dia, o Guga comentou comigo: "Porra, Larri! Está muito lenta a quadra". As bolas estão lentas. Então, hoje dá para jogar. Tem que treinar, tem que trabalhar, tem que fortalecer e ajustar para cada tipo de jogo. Eu não vejo problema nenhum.
Em 1997, o Guga ganhou os dois jogos que realizou contra o Agassi, por sinal ambos foram no piso rápido. Ele confessou que usou substâncias proibidas justamente nessa temporada e ainda explicou como enganou a ATP. Como você recebeu essas revelações?
Eu não li, não sei o que ele declarou. Prefiro olhar e ver a imagem dele indo no meu vestiário em Lisboa e me cumprimentando pelo Guga ser o número 1 do mundo. Vou ficar com essa imagem aí.
Você trabalha muito com jogadores jovens. Costuma falar sobre esse assunto com os tenistas em início de carreira?
Nossa.... eu falo muito, muito, muito. Recentemente, a Daniela jogou a final de duplas no Japão e estávamos com a (norte-americana Liezel) Huber e a (zimbabuense Cara) Black (líderes do ranking de duplas) conversando. Surgiu o assunto "drogas" e elas perguntaram a minha opinião. Eu respondi: "não toquem". Nas reuniões com as crianças e com as pessoas, minha opinião é muito clara: não toquem, não provem, porque ela mata. O tratamento no meu Instituto é choque. Quando eles entram, eu converso muito e a gente tem palestras lá dentro. As pessoas comentam que fulano de tal tem no Orkut a seguinte mensagem: "graças ao tio Larri, eu estou aqui". E o pai cheira cocaína, o pai é alcoólatra. Isso é muito bacana. A minha concepção é a seguinte: não consumam. A maneira de acabar com a droga é a educação dentro da escola, dentro da família. Na minha trajetória, eu dei de cara com a droga.
Chegaram a te oferecer algum tipo de droga?
Lógico! Aconteceu depois de adulto também, nas viagens, em qualquer lugar. É muito bacana a pessoa vir te oferecer e você responder: "meu amigo, não quero". Você pode dizer: "eu não peguei, eu não toquei". Acho que quem ama o esporte, está no esporte e está ali vivenciando, a pessoa diz assim... Tem alguns que são a favor da droga recreativa. Mas que droga recreativa é essa? Droga recreativa não existe, pô! A melhor droga recreativa é meu chimarrão de manhã que me deixa triligado. Eu adoro chimarrão. Um cara que é esportista, tem que passar essa energia e tem que respeitar... Droga recreativa!? Vai num jantar com sua namorada, senta, toma um copo de vinho, relaxa, brinca, dá risada. É a maneira mais legal que tem. A droga para mim é bem clara: não toca!
Além da confissão do Agassi, recentemente também teve aquele caso controverso do francês Richard Gasquet com cocaína. Se o jogador quer, é algo que ele encontra fácil pelo estilo de vida que tem durante a temporada?
Só uma pergunta: em relação ao Gustavo Kuerten, você ouviu alguma vez falar de droga? Não. A questão é a seguinte: quem está ao lado desses jogadores, tem que ter... Uma vez eu fui conversar com os dirigentes do Internacional. Eles perguntaram como era essa coisa de ter estado do lado do Guga. Eu disse: "vocês têm que pegar o meu exemplo com o Guga de estar com ele o tempo todo, ficar amigo, estar meio paizão dele". Tem que ver esse exemplo. É muito fácil dentro de um clube de futebol você ter pessoas para ficar ao lado desses jovens e não deixá-los no alojamento sozinhos. Acho que esse desvio de conduta que o cara dá quando chega ao topo não foi ali, foi lá embaixo. É a dor corporal que ele não conseguiu se desvencilhar quando era mais moço. O pessoal sempre perguntava para o Guga: "tu não sente pressão ?". Mas que pressão é essa de jogar o torneio e dormir num hotel cinco estrelas? Quem tem pressão é um cara desempregado e com cinco filhos! Até hoje, dizem que ele foi o número 1 mais feliz do mundo. É bacana isso...
Você é conhecido como um treinador muito rigoroso e disciplinador. Em relação ao seu trabalho com o Guga, quanto foi inspiração e quanto foi transpiração?
Quando eu conheci o Guga, não achava a técnica dele boa, mas vi um raciocínio muito rápido. Tive que entrar dentro da cabeça dele para ver essas coisas. Ele era completamente desligado, um cara que tinha dificuldade para correr, problemas de coordenação. Nos últimos dez anos, muitos jogadores pararam antes do tempo simplesmente por não ter aquele algo mais de dizer: "eu quero me trancar no quarto, quero ter minha rotina". Se você quiser ser um campeão, precisa de uma rotina difícil, ainda mais quando tem muitos atrativos ao redor. Eu faço uma pergunta para ti: se o Guga tivesse ficado em Florianópolis, ele seria surfista ou jogador de tênis?
Ele poderia ficar pegando onda e torcendo para o Avaí...
Mas teve um cara louco que pegou ele e disse: "tu vai ter que vir para Balneário Camboriú, vai ter que morar aqui nesse apartamentinho, vai dormir aqui nesse quarto, vai acordar de manhã, nós vamos para a quadra e é isso aí". A tendência era ser mais surfista do que tenista. Tem que ter aquele algo mais. Essa era a grande diferença. No começo, ele foi transpiração. Depois, quando já tinha seus 22, 23 anos, foi a transpiração com inspiração. O Guga pensava: "o Larri é meu ídolo, vou abraçar o que ele falar". Foi isso que aconteceu.
Sua atual pupila é a Daniela Hantuchova. Ela já ocupou o quinto lugar tanto do ranking de simples quanto do ranking de duplas. Com ela, você acha que pode voltar a ganhar um Grand Slam?
Na nossa primeira conversa, eu disse que para ficar entre as 30 do mundo, ela não precisava de mim. Mas ela falou que o objetivo era chegar ao topo de novo. Quando começamos a trabalhar, fiquei apavorado. Ela estava sem confiança, sem físico, fraca de perna, fraca de cabeça. Eu peguei uma batata fervendo na mão. Tinha uma semana até o começo do circuito de saibro na Europa, mas foi excelente. Ela está recuperando a confiança, mudou bastante o jogo e está jogando bem. A gente tem um contrato temporário de 20 semanas por ano. No final do ano, ela falou: "queria que você tivesse comigo 365 dias". Mas é impossível. Quando ela apareceu, era uma jovem muito bonita e esguia. Acabaram gerando muita expectativa e isso pesou um pouco na carreira dela. A gente fala muito disso e trabalha bastante a parte mental. Ela está mais alegre, está sorrindo mais. Ela tem condições de ganhar um Grand Slam, sem dúvida nenhuma. Acho que pode chegar até o top 10. Ela tem tênis para chegar e estamos ajustando o jogo dela.
A dinamarquesa Caroline Wozniacki despertou suspeitas de favorecer apostadores ao abandonar um jogo no Torneio de Luxemburgo. Você desconfia de alguma armação?
Não estou sabendo de nada disso.
Além de voltar a treinar um top masculino, você tem mais algum plano para o futuro? Gostaria de participar da equipe brasileira na Davis ou ocupar um cargo na Confederação Brasileira de Tênis?
Eu trabalhei três anos na Copa Davis e minhas lembranças são excelentes. Tenho grandes memórias da competição. No ano passado, posso dizer que ajudei. Eu estive contra a Colômbia e orientei um pouco. Quando o Chico Costa entrou na comissão, pediram minha opinião e ajudei bastante, mas nesse ano eu desliguei total. Eu ajudo apenas o Marcos Daniel, que é um amigo. Esse ano, não fui consultado e prefiro ficar bem à parte. Hoje, tenho bastante coisa: minha família, o Instituto Larri Passos, tem a Academia, a Daniela, tenho muita coisa para fazer. Preciso reconstruir minha Academia, que foi destruída pela enchente. Tenho que me virar. Não passa pela minha cabeça ser capitão da equipe a curto prazo.
O espanhol Emílio Sánchez Vicário, atual campeão da Copa Davis, é o coordenador do tênis brasileiro. Como você avalia o trabalho dele até o momento?
Não conheço o trabalho dele. O que ele faz aqui dentro, eu não conheço.
É desagradável ver um estrangeiro que mora fora do País nesse cargo?
Não me dá nada. Não sou eu que pago ele, né?
Para terminar, algumas perguntas de bate-pronto. Qual foi o melhor momento de toda sua carreira com o Guga?
O que mudou minha vida foi 1997 (Roland Garros), sem dúvida nenhuma. Mudou a minha vida e tenho que ressaltar, mas a maior alegria realmente foi Lisboa (Masters Cup), quando ele chegou ao numero 1 do mundo.
E o momento mais triste?
O mais difícil? O mais duro para mim foi quando ele perdeu o irmão (Guilherme Kuerten sofria de paralisia cerebral e morreu em novembro de 2007). Ele me ligou chorando. Eu estava na Academia, peguei o jipe e saí correndo. Passei as seguintes 24 horas ao lado dele, segurando a onda dele, apesar de já ter preparado muito ele para esse momento. Acho que foi o mais difícil para nós dois, porque nós tínhamos no irmão a nossa referência, a nossa alegria. Quando a gente via ele e ele nos via, ele ria muito. Então, foi um momento bastante duro. Eu saí correndo de jipe e quase bati, perdi completamente a noção. Preparei ele por bastante tempo, mas foi muito duro.
O Guga é o melhor tenista brasileiro de todos os tempos. Foi um jogador sem precedentes entre os homens do País. Você se considera fora de série na mesma medida entre os treinadores?
Vou te responder o seguinte: eu não olho para o lado, eu olho para a frente e tento ser melhor do que eu mesmo todos os dias. Tento me desafiar todos os dias, tento ser melhor do que eu mesmo. Não tenho ego, brigo muito com ele, tento sempre ficar no consciente. Quando ele vem e quer se apoderar de mim, eu não deixo. Sai daqui, quem manda sou eu, estou no agora, estou aqui. Até porque eu tenho crianças doentes, tenho crianças que tenho que ter paciência, tenho crianças que tenho que beijar e carregar no colo. Isso me ensina muito. Tento ser melhor do que eu mesmo todos os dias.
Uma curiosidade para terminar. Em alguns momentos da entrevista, você me lembrou um pouco o técnico Dunga. De alguma forma, se acha parecido com ele?
Quando o Dunga assumiu a seleção, a gente estava na Bahia e conversou bastante, trocou bastante ideia. Foi bacana e torço muito por ele. É um cara honesto, um cara trabalhador, um cara sincero. Assim como eu tinha, ele tem uma pressão muito grande por estar trabalhando com o melhor time do mundo, sem dúvida nenhuma. Acho que o trabalho mais importante do Dunga é fazer os caras se doarem para a seleção brasileira, mais do que simplesmente jogar futebol. Com o talento que o Brasil tem, se os caras se doarem, o time fica imbatível. Acho que ele encarna muito o meu espírito de brasileiro, meu espírito de amar o Brasil, tanto é que vive até hoje no Rio Grande do Sul. Ele tem esse espírito brasileiro. Acho que a posição dele na seleção é incontestável.
Você costuma acompanhar o trabalho dos treinadores de outras modalidades?
Esse ano, eu passei bastante tempo fora do Brasil e fiquei muito distante deles. Minha relação com o Zé Roberto (Guimarães, da seleção feminina de vôlei) é muito legal. Eu admiro o trabalho dele pra caramba. Tinha mais contato com ele por minha esposa ser jornalista. Nas Olimpíadas, até me emocionei quando ele ganhou. Chorei muito, porque sei o quanto ele batalhou para ganhar aquela medalha. E outra coisa: tenho muita admiração porque ele trabalha com 12 mulheres. Se trabalhar com uma já é difícil, trabalhar com 12 é mais complicado ainda. Sempre digo a ele: "a gente não trabalha com mulher, a gente trabalha com os hormônios" (risos). Eu tenho uma admiração muito grande por esses técnicos. O Muricy Ramalho, por exemplo, também tive bastante contato com ele no Internacional. Uma vez, ele me liberou o vestiário e a gente conversou bastante com os jogadores. Foi muito bacana, mas não tenho tido tempo para acompanhar mais de perto.
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