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- 14h10
- 09Oct
Algoz do Brasil na Davis, Lapentti relembra amizade com Guga
por ESPN.com.br com Agência GE
Um tenista de 33 anos prestes a se aposentar permaneceu em quadra por 11h49min durante o final de semana de 18 a 20 de setembro e impediu a classificação do Brasil para o Grupo Mundial da Copa Davis. Nicolas Lappentti conquistou os três pontos do Equador na série disputada em Porto Alegre e provou que a posição dos jogadores no ranking mundial é um mero detalhe na tradicional competição por nações.
Das tribunas, Gustavo Kuerten acompanhou a saga do amigo equatoriano. Nascidos no mesmo ano de 1976, ambos iniciaram a carreira lado a lado e cresceram juntos no circuito. Como parceiros e adversários, viveram momentos inesquecíveis, a ponto de o tricampeão de Roland Garros mandar uma mensagem para parabenizar Lapentti após ver seus compatriotas eliminados no playoff da Davis pela quarta vez consecutiva.
Em sua breve passagem por São Paulo para defender o Pinheiros no Troféu Brasil, o tenista equatoriano concedeu entrevista exclusiva à GE.Net. Além de falar sobre o resultado épico em Porto Alegre, Lapentti relembrou a amizade com Guga. "Ele já parou de jogar e nos vemos pouco. Mas nossa amizade é daquelas que, por mais que não nos vejamos por um ano ou mais, cada vez que nos encontramos somos os mesmos amigos de sempre", disse.
Sucessor de Andrés Gómez, seu primo e maior tenista da história do Equador, Lapentti ainda aconselhou o jovem Thomaz Bellucci, 21 anos, principal esperança brasileira após a saída de Guga do circuito. Com os planos de encerrar a carreira adiados em função do triunfo sobre o Brasil na Copa Davis, ele já pensa no confronto com a Croácia pelo Grupo Mundial.
RAIO-X
Nome: Nicolas Alexander Lapentti Gómez
Data de Nascimento: 13/08/1976
Local de Nascimento: Guayaquil (EQU)
Local de Residência: Guayaquil/Miami (EUA)
Altura: 1,88m
Peso: 86kg
Empunhadura: destro
Profissional desde: 1995
Ranking atual: 130º
Melhor ranking: 6º (22/11/1999)
Premiação: US$ 6.212.043,00
Títulos em simples:
St. Poelten-2002 (ao ar livre/saibro)
Kitzbuhel-2001 (ao ar livre/saibro)
Lyon-1999 (quadra coberta/carpete)
Indianápolis-1999 (ao ar livre/quadra dura)
Bogotá-1995 (ao ar livre/saibro)
Títulos em duplas:
Adelaide-1999 (com Kuerten, ao ar livre/quadra dura)
Cid. do México-1997 (com Orsanic, ao ar livre/saibro)
Amsterdam-1997 (com Kilderry, ao ar livre/saibro)
GE.Net - O Brasil era apontado como franco favorito contra o Equador na Copa Davis por jogar em casa e contar com tenistas melhores ranqueados. Como era o clima entre vocês antes do início da série?
Lapentti - Nos dias anteriores, nós sabíamos que seria uma série muito dura, mas tínhamos confiança que podíamos ganhar. Tínhamos claro que Brasil era o favorito, mas não um favorito que seria impossível de vencer. Seria um favorito que, se as coisas dessem certo para nós, seria possível ganhar. Sabíamos que os jogos de simples seriam muito importantes e que o jogo de duplas seria praticamente a chave. A coisa deu certo para nós em duplas e jogamos uma excelente partida.
GE.Net - Pelo amplo favoritismo do Brasil, vocês mesmos consideraram a vitória uma surpresa ou seria um exagero dizer isso?
Lapentti - Não, não foi uma surpresa. Na verdade, nesse caso o ranking não influencia tanto. Por mais que o Marcos (Daniel) e o Thomaz (Bellucci) estejam melhores ranqueados do que nós, eu tenho um ranking de 140, mas não me sinto como um jogador 140. Sinto que jogo como um jogador que está no top 30 ou talvez no top 20, e a experiência de ter jogado muitos anos na Davis faz com que o ranking não importe muito. (Desde que estreou na Davis em 1993 com apenas 16 anos, Lapentti tem 61 vitórias e 32 derrotas na competição). Isso é o bonito da Davis: nunca nada está escrito.
GE.Net - Durante o final de semana do confronto, você ficou quase 12 horas em quadra e ganhou os três pontos do seu país pela nona vez na carreira. Como um jogador de 33 anos prestes a se aposentar consegue isso?
Lapentti - Eu acho que são duas coisas as mais importantes. Uma que durante a minha carreira eu sempre joguei partidas muito longas e essa foi uma das minhas virtudes: ser forte física e mentalmente. A segunda é que cinco semanas antes do US Open eu comecei um trabalho de preparação física muito intenso visando o US Open e a Copa Davis. Eu sabia que teria que estar muito bem preparado e que seriam partidas longas. No US Open, joguei duas partidas muito longas de cinco sets e me serviu muito de preparação para a Davis. (Nos Estados Unidos, Lapentti estreou com vitória sobre o suíço Stanislas Wawrinka em 4h43min com parciais de 4/6, 3/6, 7/6 (8-6) 7/6 (7-3) e 6/3. Na segunda rodada, o uzbeque Denis Istomin venceu Lapentti em 4h48min com parciais de 2/6, 6/4, 4/6, 7/5 e 7/6 (7-4)
GE.Net - Juntando simples e duplas, você tem 16 vitórias e nove derrotas em jogos de cinco sets na Copa Davis. Em toda a história do torneio, é superado apenas pelo italiano Nicola Pietrangeli, que tem 19 vitórias e nove derrotas. Em simples, com 13 vitórias e quatro derrotas, você é o recordista na competição. Os jogos de cinco sets acabam sendo uma vantagem para você?
Lapentti - Eu acho que é uma vantagem, porque já estive nessas situações muitas vezes e sei como me comportar. Se me sinto cansado, sei como administrar e regular as energias, acho que isso é o mais importante. Diferente do Marcos Daniel, acho que era a sexta ou a quinta vez que ele jogava um jogo de cinco sets (o brasileiro perdeu os cinco jogos de cinco sets de sua carreira, todos em simples). Acho que joguei mais de 30 na minha carreira. Isso faz a diferença. (Em jogos de cinco sets em simples, Lapentti tem 29 vitórias e 15 derrotas. Em duplas, ele tem três vitórias e cinco derrotas. No total, são 32 vitórias e 20 derrotas em jogos de cinco sets)
GE.Net - O fato de jogar com o ginásio lotado pela torcida adversária é algo que ainda incomoda ou um jogador com a sua experiência não sente mais esse tipo de pressão?
Lapentti - Incomoda em alguns momentos, mas a experiência ajuda a tentar bloquear todo o público e tentar não escutar. Tinha momentos que eu chegava no banco e duas ou três pessoas me gritavam coisas. Você tem que tentar nem responder, não olhar, não fazer um contato visual, porque isso pode incentivá-los a continuar, e essa não era a ideia. Simplesmente, às vezes pensava que todo aquele público estava favor, e não contra. Às vezes, quando o público gritava e gritava, eu tentava pensar que era para mim para me motivar. São coisas que você vai aprendendo...
GE.Net - Em um dos resultados mais surpreendentes da Copa Davis, vocês venceram a Grã-Bretanha na temporada de 2000 por 3 a 2 em plena grama de Wimbledon. O triunfo recente sobre o Brasil é comparável ao resultado contra os britânicos?
Lapentti - Eu acho que se compara, mas ainda acho que a vitória contra a Inglaterra é maior. Aí sim que a Inglaterra era a máxima favorita, ninguém dava um centavo por nós e eles ainda tinham o Tim Henman (então 16º do mundo) e o Greg Rusedski (então 26º do mundo). Na grama, eles eram muito, muito superiores a nós. Eu e meu irmão nunca tínhamos conquistado resultados na grama e na verdade essa sim foi uma grande surpresa. (Dos 611 jogos de Lapentti no circuito, apenas 30 foram na grama, e ele contabiliza 19 derrotas)
GE.Net - O tênis é um esporte muito solitário, no qual o jogador não pode ter contato nem com o próprio treinador em quadra. Durante toda a temporada, os tenistas jogam sozinhos e por si mesmos. Você acha que a grande magia da Copa Davis é fazer do tênis um esporte coletivo?
Lapentti - Claro que sim. Como você disse, o tênis é um esporte muito solitário, você está sempre pensando em si mesmo. Tem sua equipe de trabalho, mas não é a mesma coisa. Quando chega a Davis, você tem o espírito de um time, além de representar um país sempre com seus companheiros. As cenas são maiores, você se diverte, se concentra. É completamente diferente. É como eu disse há pouco: tem o orgulho de poder representar um país, de saber que tem todo um país dependente do seu resultado. Isso é uma honra e uma satisfação muito grande.
Confrontos do Grupo Mundial em 2010
Espanha x Suíça
França x Alemanha
Rússia x Índia
Suécia x Argentina
Croácia x Equador
Sérvia x Estados Unidos
Chile x Israel
Bélgica x República Tcheca
GE.Net - Pelo sorteio da Copa Davis do ano que vem, o Equador enfrenta a Croácia fora de casa. O que você acha do confronto?
Lapentti - Olha, na verdade tínhamos oito opções de países. Dentro dos países que estavam no sorteio, a Croácia não é a mais dura. É um pais muito difícil e teria sido muito melhor jogar em casa, mas caímos de visitante. Eu acho que vamos um pouco na mesma história que viemos aqui. Eles são os favoritos, mas não é uma série impossível de ganhar.
GE.Net - Se o Brasil vencesse o confronto em Porto Alegre e entrasse no Grupo Mundial no lugar do Equador, você pretendia realmente encerrar a carreira?
Lapentti - Era uma grande possibilidade, porque cada vez me custa mais encontrar motivação para continuar trabalhando. Meu ranking agora está um pouco baixo. No resto do ano, me sobram somente alguns challengers, e teria que jogá-los muito bem para terminar entre os 100. Essa teria sido talvez a única razão para seguir jogando. Estava dentro dos meus planos: se não vencêssemos, me aposentaria.
GE.Net - Então com certeza 2010 será sua última temporada no circuito?
Lapentti - Não é certeza. Acho que se eu entrar em 2010 motivado, se fizer um bom ano, se meu ranking subir e de repente eu entrar dentro dos 50 do mundo, é possível que continue jogando em 2011.
GE.Net - O Guga acompanhou os jogos em Porto Alegre. Vocês chegaram a conversar depois do final da série?
Lapentti - Não vi ele depois do último jogo, só no dia anterior. Os jogos terminaram muito tarde. Ele me mandou uma mensagem felicitando pela vitória. O Guga disse que, obviamente, estava torcendo pelo Brasil, mas me parabenizou pelo esforço que fiz e por ter ganhado a série.
GE.Net - O Guga é um dos seus melhores amigos no circuito. Você lembra como começou a amizade entre vocês dois?
Lapentti - A primeira vez que nos enfrentamos foi no Orange Bowl de 14 anos. Essa foi a primeira vez que nos vimos. Depois, quando fomos deixando os torneios juvenis, nos encontrávamos no Cosat (circuito sul-americano juvenil), nos encontrávamos nos Sul-Americanos e fomos nos conhecendo. Você vai se dando conta das pessoas que têm qualidade humana. Em 1993, tínhamos 18 anos e viajamos juntos para nossa primeira excursão europeia. Nessa época, começamos a jogar duplas e éramos parceiros de quarto. A amizade foi crescendo e cada vez fomos sendo mais amigos e mais amigos.
GE.Net - Na final do tradicional Orange Bowl de 1994, você ganhou dele por 6/3 e 7/6 (7-3). Quinze anos depois, você lembra alguma coisa dessa partida?
Lapentti - Nessa época, já éramos muito amigos, demais. Depois de jogar a final de simples, ainda jogamos a final de duplas e perdemos para uns canadenses (Bobby Kokavec e Jocelyn Robichaud venceram com parciais de 3/6, 6/3 e 6/3). Eu me lembro muito bem dessas finais, porque foram jogadas no dia 25 de dezembro, dia de Natal. Tenho uma recordação muito especial, porque o Guga já era um grande jogador e para mim, obviamente, ganhar o Orange Bowl era uma alegria muito grande.
GE.Net - No mesmo ano de 1994, você e o Guga foram semifinalistas de Wimbledon e ainda ganharam o título da chave de duplas de Roland Garros na categoria juvenil...
Lapentti - Eu também me lembro muito bem dessa final. Era a quadra número 3 do antigo Roland Garros, antes da remodelação, e ganhamos de dois franceses (com parciais 6/2 e 6/4, superaram Nicolas Escude e Maxime Boye). Tenho uma boa história dessa decisão. O Rafa, irmão do Guga, todos os dias levava uma filmadora e uma máquina fotográfica para documentar nossos jogos. No dia da final, ele esqueceu os equipamentos no hotel e não pôde tirar fotos e nem gravar a cerimônia de premiação. Sempre fazemos piada com ele. Temos registros do fotógrafo do torneio, mas o Rafa tirava fotos todos os dias e, nesse dia, esqueceu a máquina...
GE.Net - O título de duplas de Roland Garros como juvenil é um dos maiores da sua carreira ou seria demais dizer isso?
Lapentti - Como juvenil, é. Tem muitas que, como profissional, você não pode comparar com a carreira juvenil. Tem vários juvenis que são muito bons e depois como profissionais não são nada. Hoje em dia, ser bom como juvenil pode dar em alguma coisa, mas não é uma garantia de ser bom como profissional. Obviamente que a lembrança de ser campeão juvenil em Roland Garros é muito grande, mas um título a nível ATP é muito maior. (Como juvenil, Lapentti também ganhou a chave de duplas do Aberto dos Estados de 1994 ao lado do australiano Ben Ellwood)
GE.Net - Em 1997, o Guga ganhou Roland Garros pela primeira vez e surpreendeu o mundo. Por conhecê-lo melhor, você já sabia que ele tinha potencial para conquistar um Grand Slam?
Lapentti - Na verdade, não. Nesse momento, não. O Guga era o 50, 60 do ranking (o brasileiro era o 66º da lista mundial) e obviamente estava jogando muito bem. Ser 60 do mundo com 20 anos era algo muito bom, mas eu não esperava. Acho que ninguém pensava que ele poderia ganhar um Grand Slam, ainda mais Roland Garros. Eu lembro que estava em Bolonha, que foi o torneio que ele jogou na semana seguinte. Era incrível... vê-lo chegar depois de ganhar Roland Garros era realmente incrível. Eu realmente não conseguia acreditar.
GE.Net - Como parceiros, você e o Guga têm 16 vitórias e 13 derrotas. Em 1999, com um duplo 6/4 sobre os norte-americanos Patrick Galbraith e Jim Courier, ex-número 1 do mundo, foram campeões em Adelaide no primeiro título da carreira do Guga em quadra rápida. Como funcionava a parceria de vocês?
Lapentti - Era muito divertido, porque tínhamos uma excelente relação tanto dentro como fora da quadra. Jogávamos muito concentrados e com muita vontade, mas, ao mesmo tempo, muito relaxados. Acho que isso era um excelente complemento. Foi uma lástima que não pudemos continuar jogando mais, porque chegou um momento em 1999 que nós começamos a ganhar muitos jogos de simples e jogar duplas era muito cansativo. Então, decidimos não jogar tantos torneios de duplas juntos. Depois, ele começou a jogar bastante com (o brasileiro Fernando) Meligeni e fomos parando de jogar duplas, mas teria sido muito bonito continuar jogando junto.
GE.Net - Em seis jogos contra o Guga, você perdeu quatro e venceu dois. Como era jogar contra ele? Vocês eram amigos e conheciam muito bem o estilo de jogo um do outro...
Lapentti - Era duro, era muito duro porque, obviamente, jogar contra um amigo não é fácil. Mas, ao mesmo tempo, somos profissionais e no momento em que você entra na quadra, tem um respeito especial por esse tipo de adversário, mas entra pensando sempre em ganhar.
GE.Net - Qual desses jogos contra o Guga foi mais marcante para você?
Lapentti - Eu me lembro muito bem da vez que jogamos em Roland Garros, em 2000. Apesar de jogar contra um grande amigo, o fato de enfrentar o Guga em Roland Garros e na quadra central era um.... era um privilégio. Para mim, foi um privilégio poder jogar contra ele nessa quadra que, nesse momento, era a quadra do Guga. Era o melhor momento dele. Ele te.... ele te criava... ele emanava um respeito quando entrava que fazia você ficar mais nervoso que o normal. (Na campanha do bicampeonato, Guga venceu Lapentti nas oitavas de final com parciais de 6/3, 6/4 e 7/6 (7-4). Essa foi a melhor campanha do equatoriano em Roland Garros)
GE.Net - Em 1999, você fez sua melhor campanha em um torneio do Grand Slam ao chegar à semifinal do Aberto da Austrália. Além disso, atingiu o sexto lugar do ranking mundial. Nesse momento, achava que tinha condições de vencer um Grand Slam, a exemplo do Guga?
Lapentti - É... eu acho que tinha jogo para isso, mas me faltava um pouco mais de agressividade. Para ganhar um Grand Slam, você tem que ganhar jogos mais curtos, tem que ser muito mais agressivo, ser superior aos seus rivais. Para mim, toda minha vida me custou muito ganhar jogos em três sets em Grand Slams. Isso ia me desgastando. Eu ganhava a primeira rodada em quatro sets, a segunda rodada em cinco sets, a terceira rodada em cinco sets e já chegava muito cansado para o outro jogo. Então, era muito difícil, na verdade. Ganhar um Grand Slam já é uma coisa maior. (Quando foi semifinalista na Austrália, ele bateu os suecos Thomas Johansson, Magnus Norman e Mikael Tillstrom em cinco sets, superou o australiano Andrew Ilie em quatro sets nas oitavas e venceu o eslovaco Karol Kucera nas quartas em mais um jogo de cinco sets. Na sequência, perdeu por 3 a 0 do sueco Thomas Enqvist)
GE.Net - Não ter vencido um Grand Slam chega a ser uma frustração?
Lapentti - Uma frustração, não. Mas era um dos objetivos que tracei depois de ter jogado o Masters em 1999 (perdeu para André Agassi, Gustavo Kuerten e Pete Sampras). Se você está entre os 100 do mundo, é um pouco imprudente dizer que quer ganhar um Grand Slam. Mas se você está entre os 10 primeiros, aí sim tem o direito de dizer: 'eu posso ganhar um Grand Slam'. Foi uma meta que estabeleci depois disso, mas lamentavelmente não se cumpriu.
GE.Net - O Guga encerrou a carreira no ano passado e o Brasil ainda não tem um grande ídolo no tênis. É mais difícil para um jovem começar a jogar bem e ganhar torneios após a saída de um astro como o Guga?
Lapentti - Eu acho que é o contrário. Para os jovens, deveria ser uma motivação muito grande ter um ídolo como foi o Guga aqui no Brasil. São as coisas que às vezes você não entende de alguns países. Mesmo o Brasil sendo um país tão grande e tendo o apoio econômico de muitas empresas, não saem tenistas em quantidade. Tem o Marcos Daniel (atual 86º do ranking mundial), que está jogando bem, e tem o Bellucci (atual 56º do ranking mundial), que acho que é um jogador que vai melhorar muito. Acho que é questão de continuar trabalhando, tem que começar de baixo, desde as escolas, para poder massificar o tênis.
GE.Net - Seu compatriota e primo Andrés Gómez foi número 4 do mundo em simples e ganhou Roland Garros. Em duplas, também foi campeão em Paris e ainda venceu o Aberto dos Estados Unidos, além de liderar o ranking mundial. Você se profissionalizou quando ele estava encerrando a carreira. Imagino que tenha enfrentado uma situação parecida com a do Bellucci...
Lapentti - Sim, mas para mim não foi uma pressão. Era mais uma motivação tentar ocupar o lugar que ele deixou. De qualquer forma, não posso comparar a carreira que eu tive com a carreira dele. Ele fez uma carreira brilhante. Eu considero que minha carreira foi excelente também, mas a carreira dele foi muito melhor. Mas é difícil comparar, não se pode comparar. O importante é ser motivado e tentar preencher esse vazio.
GE.Net - Curiosamente, sua estreia na Copa Davis foi em um jogo de duplas com o Gómez quando você tinha apenas 16 anos. Em 1993, os venezuelanos Salvador Covee e Maurice Ruah venceram com parciais de 6/4, 7/6 (7-3) e 6/4, mas acho que foi um momento inesquecível para você...
Lapentti - Para mim, foi um sonho que acabou se tornando realidade poder ser companheiro de duplas do meu maior ídolo justamente na minha estreia em Copa Davis.
GE.Net - A maior esperança do tênis brasileiro após a saída do Guga é o Thomaz Bellucci, que nesse ano ganhou seu primeiro ATP, em Gstaad. Você jogou contra ele em Porto Alegre e venceu. Até onde acha que ele pode chegar?
Lapentti - No top 50, com certeza ele vai conseguir entrar, porque já está muito perto. É um jogador que bate muito bem na bola, é muito trabalhador, você vê que tem muita vontade de melhorar. Falta realmente aprender um pouco a jogar mais o tênis, a movimentar melhor a bola dentro da quadra, e isso vem com a experiência, com os jogos vencidos e com a continuidade no circuito.
GE.Net - O segundo equatoriano mais bem colocado no ranking é o seu irmão Giovanni (atual 233º do mundo). Depois que você encerrar a carreira, acha que a cobrança sobre ele vai aumentar?
Lapentti - Eu acho que é difícil, porque sempre tem as comparações com um irmão. Acho que não é fácil superar isso, mas depende da cabeça, da motivação que ele tenha. Eu vejo muitas condições nele, mas ao mesmo tempo ele já perdeu muitos anos. Aos 17 anos, ele era um grande tenista e agora tem 26 e ainda não está entre os top 100. Acho que isso ainda é um desafio para ele.
GE.Net - Você é um dos poucos tenistas em atividade que enfrentaram Pete Sampras, André Agassi, Rafael Nadal e Roger Federer. Contra quem era mais difícil de jogar?
Lapentti - (4 segundos de silêncio) Eu acho que, em seu melhor dia, talvez o Agassi, porque era um jogador que, dos dois lados, batia muito forte na bola e não te dava respiro, não te dava tempo de nada. Considero que o Sampras foi um melhor jogador em termos de resultados, ganhou muito mais coisas. Mas eu preferia jogar contra o Sampras do que contra o Agassi. (Lapentti perdeu cinco vezes de Agassi e foi derrotado três vezes por Sampras e Federer. Diante de Nadal, ele tem uma vitória e duas derrotas)
GE.Net - Em boas condições físicas, o Nadal não tem rivais à altura no saibro. Se ele jogasse contra os tenistas da sua geração, como o Thomas Muster, o Alex Corretja, o Guga e o Sergi Bruguera, você acha que ele perderia mais jogos e brilharia um pouco menos?
Lapentti - Isso é muito difícil de dizer. É claro que o Guga em seu momento foi o melhor jogador no saibro como o Rafa é agora. Tenho certeza que se eles tivessem jogado um contra o outro, teriam sido batalhas impressionantes. Mas é difícil especular sobre algo que você nunca vai viver.
GE.Net - Atualmente, mesmo os tenistas especializados em quadras rápidas, como o Novak Djokovic e o Andy Roddick, conseguem se sair bem nos torneios de saibro. Você acha que falta um grande jogador de saibro para rivalizar com o Nadal?
Lapentti - Eu acho que tem muitos bons jogadores de saibro, mas o problema é que o Nadal é superior. Fisicamente, é muito superior e é isso que acontece. Mas tem grandes jogadores no saibro.
GE.Net - O seu pai é político e já foi prefeito. Depois de encerrar sua trajetória como jogador, você pensa em seguir a carreira política? O que pretende fazer?
Lapentti - Eu apoio meu pai em tudo que ele faz, mas não gosto de política. Ainda não sei o que vou fazer depois de encerrar a carreira. Eu gostaria de continuar envolvido com o tênis, mas sem viajar permanentemente.
Das tribunas, Gustavo Kuerten acompanhou a saga do amigo equatoriano. Nascidos no mesmo ano de 1976, ambos iniciaram a carreira lado a lado e cresceram juntos no circuito. Como parceiros e adversários, viveram momentos inesquecíveis, a ponto de o tricampeão de Roland Garros mandar uma mensagem para parabenizar Lapentti após ver seus compatriotas eliminados no playoff da Davis pela quarta vez consecutiva.
Em sua breve passagem por São Paulo para defender o Pinheiros no Troféu Brasil, o tenista equatoriano concedeu entrevista exclusiva à GE.Net. Além de falar sobre o resultado épico em Porto Alegre, Lapentti relembrou a amizade com Guga. "Ele já parou de jogar e nos vemos pouco. Mas nossa amizade é daquelas que, por mais que não nos vejamos por um ano ou mais, cada vez que nos encontramos somos os mesmos amigos de sempre", disse.
Sucessor de Andrés Gómez, seu primo e maior tenista da história do Equador, Lapentti ainda aconselhou o jovem Thomaz Bellucci, 21 anos, principal esperança brasileira após a saída de Guga do circuito. Com os planos de encerrar a carreira adiados em função do triunfo sobre o Brasil na Copa Davis, ele já pensa no confronto com a Croácia pelo Grupo Mundial.
RAIO-X
Nome: Nicolas Alexander Lapentti Gómez
Data de Nascimento: 13/08/1976
Local de Nascimento: Guayaquil (EQU)
Local de Residência: Guayaquil/Miami (EUA)
Altura: 1,88m
Peso: 86kg
Empunhadura: destro
Profissional desde: 1995
Ranking atual: 130º
Melhor ranking: 6º (22/11/1999)
Premiação: US$ 6.212.043,00
Títulos em simples:
St. Poelten-2002 (ao ar livre/saibro)
Kitzbuhel-2001 (ao ar livre/saibro)
Lyon-1999 (quadra coberta/carpete)
Indianápolis-1999 (ao ar livre/quadra dura)
Bogotá-1995 (ao ar livre/saibro)
Títulos em duplas:
Adelaide-1999 (com Kuerten, ao ar livre/quadra dura)
Cid. do México-1997 (com Orsanic, ao ar livre/saibro)
Amsterdam-1997 (com Kilderry, ao ar livre/saibro)
GE.Net - O Brasil era apontado como franco favorito contra o Equador na Copa Davis por jogar em casa e contar com tenistas melhores ranqueados. Como era o clima entre vocês antes do início da série?
Lapentti - Nos dias anteriores, nós sabíamos que seria uma série muito dura, mas tínhamos confiança que podíamos ganhar. Tínhamos claro que Brasil era o favorito, mas não um favorito que seria impossível de vencer. Seria um favorito que, se as coisas dessem certo para nós, seria possível ganhar. Sabíamos que os jogos de simples seriam muito importantes e que o jogo de duplas seria praticamente a chave. A coisa deu certo para nós em duplas e jogamos uma excelente partida.
GE.Net - Pelo amplo favoritismo do Brasil, vocês mesmos consideraram a vitória uma surpresa ou seria um exagero dizer isso?
Lapentti - Não, não foi uma surpresa. Na verdade, nesse caso o ranking não influencia tanto. Por mais que o Marcos (Daniel) e o Thomaz (Bellucci) estejam melhores ranqueados do que nós, eu tenho um ranking de 140, mas não me sinto como um jogador 140. Sinto que jogo como um jogador que está no top 30 ou talvez no top 20, e a experiência de ter jogado muitos anos na Davis faz com que o ranking não importe muito. (Desde que estreou na Davis em 1993 com apenas 16 anos, Lapentti tem 61 vitórias e 32 derrotas na competição). Isso é o bonito da Davis: nunca nada está escrito.
GE.Net - Durante o final de semana do confronto, você ficou quase 12 horas em quadra e ganhou os três pontos do seu país pela nona vez na carreira. Como um jogador de 33 anos prestes a se aposentar consegue isso?
Lapentti - Eu acho que são duas coisas as mais importantes. Uma que durante a minha carreira eu sempre joguei partidas muito longas e essa foi uma das minhas virtudes: ser forte física e mentalmente. A segunda é que cinco semanas antes do US Open eu comecei um trabalho de preparação física muito intenso visando o US Open e a Copa Davis. Eu sabia que teria que estar muito bem preparado e que seriam partidas longas. No US Open, joguei duas partidas muito longas de cinco sets e me serviu muito de preparação para a Davis. (Nos Estados Unidos, Lapentti estreou com vitória sobre o suíço Stanislas Wawrinka em 4h43min com parciais de 4/6, 3/6, 7/6 (8-6) 7/6 (7-3) e 6/3. Na segunda rodada, o uzbeque Denis Istomin venceu Lapentti em 4h48min com parciais de 2/6, 6/4, 4/6, 7/5 e 7/6 (7-4)
GE.Net - Juntando simples e duplas, você tem 16 vitórias e nove derrotas em jogos de cinco sets na Copa Davis. Em toda a história do torneio, é superado apenas pelo italiano Nicola Pietrangeli, que tem 19 vitórias e nove derrotas. Em simples, com 13 vitórias e quatro derrotas, você é o recordista na competição. Os jogos de cinco sets acabam sendo uma vantagem para você?
Lapentti - Eu acho que é uma vantagem, porque já estive nessas situações muitas vezes e sei como me comportar. Se me sinto cansado, sei como administrar e regular as energias, acho que isso é o mais importante. Diferente do Marcos Daniel, acho que era a sexta ou a quinta vez que ele jogava um jogo de cinco sets (o brasileiro perdeu os cinco jogos de cinco sets de sua carreira, todos em simples). Acho que joguei mais de 30 na minha carreira. Isso faz a diferença. (Em jogos de cinco sets em simples, Lapentti tem 29 vitórias e 15 derrotas. Em duplas, ele tem três vitórias e cinco derrotas. No total, são 32 vitórias e 20 derrotas em jogos de cinco sets)
GE.Net - O fato de jogar com o ginásio lotado pela torcida adversária é algo que ainda incomoda ou um jogador com a sua experiência não sente mais esse tipo de pressão?
Lapentti - Incomoda em alguns momentos, mas a experiência ajuda a tentar bloquear todo o público e tentar não escutar. Tinha momentos que eu chegava no banco e duas ou três pessoas me gritavam coisas. Você tem que tentar nem responder, não olhar, não fazer um contato visual, porque isso pode incentivá-los a continuar, e essa não era a ideia. Simplesmente, às vezes pensava que todo aquele público estava favor, e não contra. Às vezes, quando o público gritava e gritava, eu tentava pensar que era para mim para me motivar. São coisas que você vai aprendendo...
GE.Net - Em um dos resultados mais surpreendentes da Copa Davis, vocês venceram a Grã-Bretanha na temporada de 2000 por 3 a 2 em plena grama de Wimbledon. O triunfo recente sobre o Brasil é comparável ao resultado contra os britânicos?
Lapentti - Eu acho que se compara, mas ainda acho que a vitória contra a Inglaterra é maior. Aí sim que a Inglaterra era a máxima favorita, ninguém dava um centavo por nós e eles ainda tinham o Tim Henman (então 16º do mundo) e o Greg Rusedski (então 26º do mundo). Na grama, eles eram muito, muito superiores a nós. Eu e meu irmão nunca tínhamos conquistado resultados na grama e na verdade essa sim foi uma grande surpresa. (Dos 611 jogos de Lapentti no circuito, apenas 30 foram na grama, e ele contabiliza 19 derrotas)
GE.Net - O tênis é um esporte muito solitário, no qual o jogador não pode ter contato nem com o próprio treinador em quadra. Durante toda a temporada, os tenistas jogam sozinhos e por si mesmos. Você acha que a grande magia da Copa Davis é fazer do tênis um esporte coletivo?
Lapentti - Claro que sim. Como você disse, o tênis é um esporte muito solitário, você está sempre pensando em si mesmo. Tem sua equipe de trabalho, mas não é a mesma coisa. Quando chega a Davis, você tem o espírito de um time, além de representar um país sempre com seus companheiros. As cenas são maiores, você se diverte, se concentra. É completamente diferente. É como eu disse há pouco: tem o orgulho de poder representar um país, de saber que tem todo um país dependente do seu resultado. Isso é uma honra e uma satisfação muito grande.
Confrontos do Grupo Mundial em 2010
Espanha x Suíça
França x Alemanha
Rússia x Índia
Suécia x Argentina
Croácia x Equador
Sérvia x Estados Unidos
Chile x Israel
Bélgica x República Tcheca
GE.Net - Pelo sorteio da Copa Davis do ano que vem, o Equador enfrenta a Croácia fora de casa. O que você acha do confronto?
Lapentti - Olha, na verdade tínhamos oito opções de países. Dentro dos países que estavam no sorteio, a Croácia não é a mais dura. É um pais muito difícil e teria sido muito melhor jogar em casa, mas caímos de visitante. Eu acho que vamos um pouco na mesma história que viemos aqui. Eles são os favoritos, mas não é uma série impossível de ganhar.
GE.Net - Se o Brasil vencesse o confronto em Porto Alegre e entrasse no Grupo Mundial no lugar do Equador, você pretendia realmente encerrar a carreira?
Lapentti - Era uma grande possibilidade, porque cada vez me custa mais encontrar motivação para continuar trabalhando. Meu ranking agora está um pouco baixo. No resto do ano, me sobram somente alguns challengers, e teria que jogá-los muito bem para terminar entre os 100. Essa teria sido talvez a única razão para seguir jogando. Estava dentro dos meus planos: se não vencêssemos, me aposentaria.
GE.Net - Então com certeza 2010 será sua última temporada no circuito?
Lapentti - Não é certeza. Acho que se eu entrar em 2010 motivado, se fizer um bom ano, se meu ranking subir e de repente eu entrar dentro dos 50 do mundo, é possível que continue jogando em 2011.
GE.Net - O Guga acompanhou os jogos em Porto Alegre. Vocês chegaram a conversar depois do final da série?
Lapentti - Não vi ele depois do último jogo, só no dia anterior. Os jogos terminaram muito tarde. Ele me mandou uma mensagem felicitando pela vitória. O Guga disse que, obviamente, estava torcendo pelo Brasil, mas me parabenizou pelo esforço que fiz e por ter ganhado a série.
GE.Net - O Guga é um dos seus melhores amigos no circuito. Você lembra como começou a amizade entre vocês dois?
Lapentti - A primeira vez que nos enfrentamos foi no Orange Bowl de 14 anos. Essa foi a primeira vez que nos vimos. Depois, quando fomos deixando os torneios juvenis, nos encontrávamos no Cosat (circuito sul-americano juvenil), nos encontrávamos nos Sul-Americanos e fomos nos conhecendo. Você vai se dando conta das pessoas que têm qualidade humana. Em 1993, tínhamos 18 anos e viajamos juntos para nossa primeira excursão europeia. Nessa época, começamos a jogar duplas e éramos parceiros de quarto. A amizade foi crescendo e cada vez fomos sendo mais amigos e mais amigos.
GE.Net - Na final do tradicional Orange Bowl de 1994, você ganhou dele por 6/3 e 7/6 (7-3). Quinze anos depois, você lembra alguma coisa dessa partida?
Lapentti - Nessa época, já éramos muito amigos, demais. Depois de jogar a final de simples, ainda jogamos a final de duplas e perdemos para uns canadenses (Bobby Kokavec e Jocelyn Robichaud venceram com parciais de 3/6, 6/3 e 6/3). Eu me lembro muito bem dessas finais, porque foram jogadas no dia 25 de dezembro, dia de Natal. Tenho uma recordação muito especial, porque o Guga já era um grande jogador e para mim, obviamente, ganhar o Orange Bowl era uma alegria muito grande.
GE.Net - No mesmo ano de 1994, você e o Guga foram semifinalistas de Wimbledon e ainda ganharam o título da chave de duplas de Roland Garros na categoria juvenil...
Lapentti - Eu também me lembro muito bem dessa final. Era a quadra número 3 do antigo Roland Garros, antes da remodelação, e ganhamos de dois franceses (com parciais 6/2 e 6/4, superaram Nicolas Escude e Maxime Boye). Tenho uma boa história dessa decisão. O Rafa, irmão do Guga, todos os dias levava uma filmadora e uma máquina fotográfica para documentar nossos jogos. No dia da final, ele esqueceu os equipamentos no hotel e não pôde tirar fotos e nem gravar a cerimônia de premiação. Sempre fazemos piada com ele. Temos registros do fotógrafo do torneio, mas o Rafa tirava fotos todos os dias e, nesse dia, esqueceu a máquina...
GE.Net - O título de duplas de Roland Garros como juvenil é um dos maiores da sua carreira ou seria demais dizer isso?
Lapentti - Como juvenil, é. Tem muitas que, como profissional, você não pode comparar com a carreira juvenil. Tem vários juvenis que são muito bons e depois como profissionais não são nada. Hoje em dia, ser bom como juvenil pode dar em alguma coisa, mas não é uma garantia de ser bom como profissional. Obviamente que a lembrança de ser campeão juvenil em Roland Garros é muito grande, mas um título a nível ATP é muito maior. (Como juvenil, Lapentti também ganhou a chave de duplas do Aberto dos Estados de 1994 ao lado do australiano Ben Ellwood)
GE.Net - Em 1997, o Guga ganhou Roland Garros pela primeira vez e surpreendeu o mundo. Por conhecê-lo melhor, você já sabia que ele tinha potencial para conquistar um Grand Slam?
Lapentti - Na verdade, não. Nesse momento, não. O Guga era o 50, 60 do ranking (o brasileiro era o 66º da lista mundial) e obviamente estava jogando muito bem. Ser 60 do mundo com 20 anos era algo muito bom, mas eu não esperava. Acho que ninguém pensava que ele poderia ganhar um Grand Slam, ainda mais Roland Garros. Eu lembro que estava em Bolonha, que foi o torneio que ele jogou na semana seguinte. Era incrível... vê-lo chegar depois de ganhar Roland Garros era realmente incrível. Eu realmente não conseguia acreditar.
GE.Net - Como parceiros, você e o Guga têm 16 vitórias e 13 derrotas. Em 1999, com um duplo 6/4 sobre os norte-americanos Patrick Galbraith e Jim Courier, ex-número 1 do mundo, foram campeões em Adelaide no primeiro título da carreira do Guga em quadra rápida. Como funcionava a parceria de vocês?
Lapentti - Era muito divertido, porque tínhamos uma excelente relação tanto dentro como fora da quadra. Jogávamos muito concentrados e com muita vontade, mas, ao mesmo tempo, muito relaxados. Acho que isso era um excelente complemento. Foi uma lástima que não pudemos continuar jogando mais, porque chegou um momento em 1999 que nós começamos a ganhar muitos jogos de simples e jogar duplas era muito cansativo. Então, decidimos não jogar tantos torneios de duplas juntos. Depois, ele começou a jogar bastante com (o brasileiro Fernando) Meligeni e fomos parando de jogar duplas, mas teria sido muito bonito continuar jogando junto.
GE.Net - Em seis jogos contra o Guga, você perdeu quatro e venceu dois. Como era jogar contra ele? Vocês eram amigos e conheciam muito bem o estilo de jogo um do outro...
Lapentti - Era duro, era muito duro porque, obviamente, jogar contra um amigo não é fácil. Mas, ao mesmo tempo, somos profissionais e no momento em que você entra na quadra, tem um respeito especial por esse tipo de adversário, mas entra pensando sempre em ganhar.
GE.Net - Qual desses jogos contra o Guga foi mais marcante para você?
Lapentti - Eu me lembro muito bem da vez que jogamos em Roland Garros, em 2000. Apesar de jogar contra um grande amigo, o fato de enfrentar o Guga em Roland Garros e na quadra central era um.... era um privilégio. Para mim, foi um privilégio poder jogar contra ele nessa quadra que, nesse momento, era a quadra do Guga. Era o melhor momento dele. Ele te.... ele te criava... ele emanava um respeito quando entrava que fazia você ficar mais nervoso que o normal. (Na campanha do bicampeonato, Guga venceu Lapentti nas oitavas de final com parciais de 6/3, 6/4 e 7/6 (7-4). Essa foi a melhor campanha do equatoriano em Roland Garros)
GE.Net - Em 1999, você fez sua melhor campanha em um torneio do Grand Slam ao chegar à semifinal do Aberto da Austrália. Além disso, atingiu o sexto lugar do ranking mundial. Nesse momento, achava que tinha condições de vencer um Grand Slam, a exemplo do Guga?
Lapentti - É... eu acho que tinha jogo para isso, mas me faltava um pouco mais de agressividade. Para ganhar um Grand Slam, você tem que ganhar jogos mais curtos, tem que ser muito mais agressivo, ser superior aos seus rivais. Para mim, toda minha vida me custou muito ganhar jogos em três sets em Grand Slams. Isso ia me desgastando. Eu ganhava a primeira rodada em quatro sets, a segunda rodada em cinco sets, a terceira rodada em cinco sets e já chegava muito cansado para o outro jogo. Então, era muito difícil, na verdade. Ganhar um Grand Slam já é uma coisa maior. (Quando foi semifinalista na Austrália, ele bateu os suecos Thomas Johansson, Magnus Norman e Mikael Tillstrom em cinco sets, superou o australiano Andrew Ilie em quatro sets nas oitavas e venceu o eslovaco Karol Kucera nas quartas em mais um jogo de cinco sets. Na sequência, perdeu por 3 a 0 do sueco Thomas Enqvist)
GE.Net - Não ter vencido um Grand Slam chega a ser uma frustração?
Lapentti - Uma frustração, não. Mas era um dos objetivos que tracei depois de ter jogado o Masters em 1999 (perdeu para André Agassi, Gustavo Kuerten e Pete Sampras). Se você está entre os 100 do mundo, é um pouco imprudente dizer que quer ganhar um Grand Slam. Mas se você está entre os 10 primeiros, aí sim tem o direito de dizer: 'eu posso ganhar um Grand Slam'. Foi uma meta que estabeleci depois disso, mas lamentavelmente não se cumpriu.
GE.Net - O Guga encerrou a carreira no ano passado e o Brasil ainda não tem um grande ídolo no tênis. É mais difícil para um jovem começar a jogar bem e ganhar torneios após a saída de um astro como o Guga?
Lapentti - Eu acho que é o contrário. Para os jovens, deveria ser uma motivação muito grande ter um ídolo como foi o Guga aqui no Brasil. São as coisas que às vezes você não entende de alguns países. Mesmo o Brasil sendo um país tão grande e tendo o apoio econômico de muitas empresas, não saem tenistas em quantidade. Tem o Marcos Daniel (atual 86º do ranking mundial), que está jogando bem, e tem o Bellucci (atual 56º do ranking mundial), que acho que é um jogador que vai melhorar muito. Acho que é questão de continuar trabalhando, tem que começar de baixo, desde as escolas, para poder massificar o tênis.
GE.Net - Seu compatriota e primo Andrés Gómez foi número 4 do mundo em simples e ganhou Roland Garros. Em duplas, também foi campeão em Paris e ainda venceu o Aberto dos Estados Unidos, além de liderar o ranking mundial. Você se profissionalizou quando ele estava encerrando a carreira. Imagino que tenha enfrentado uma situação parecida com a do Bellucci...
Lapentti - Sim, mas para mim não foi uma pressão. Era mais uma motivação tentar ocupar o lugar que ele deixou. De qualquer forma, não posso comparar a carreira que eu tive com a carreira dele. Ele fez uma carreira brilhante. Eu considero que minha carreira foi excelente também, mas a carreira dele foi muito melhor. Mas é difícil comparar, não se pode comparar. O importante é ser motivado e tentar preencher esse vazio.
GE.Net - Curiosamente, sua estreia na Copa Davis foi em um jogo de duplas com o Gómez quando você tinha apenas 16 anos. Em 1993, os venezuelanos Salvador Covee e Maurice Ruah venceram com parciais de 6/4, 7/6 (7-3) e 6/4, mas acho que foi um momento inesquecível para você...
Lapentti - Para mim, foi um sonho que acabou se tornando realidade poder ser companheiro de duplas do meu maior ídolo justamente na minha estreia em Copa Davis.
GE.Net - A maior esperança do tênis brasileiro após a saída do Guga é o Thomaz Bellucci, que nesse ano ganhou seu primeiro ATP, em Gstaad. Você jogou contra ele em Porto Alegre e venceu. Até onde acha que ele pode chegar?
Lapentti - No top 50, com certeza ele vai conseguir entrar, porque já está muito perto. É um jogador que bate muito bem na bola, é muito trabalhador, você vê que tem muita vontade de melhorar. Falta realmente aprender um pouco a jogar mais o tênis, a movimentar melhor a bola dentro da quadra, e isso vem com a experiência, com os jogos vencidos e com a continuidade no circuito.
GE.Net - O segundo equatoriano mais bem colocado no ranking é o seu irmão Giovanni (atual 233º do mundo). Depois que você encerrar a carreira, acha que a cobrança sobre ele vai aumentar?
Lapentti - Eu acho que é difícil, porque sempre tem as comparações com um irmão. Acho que não é fácil superar isso, mas depende da cabeça, da motivação que ele tenha. Eu vejo muitas condições nele, mas ao mesmo tempo ele já perdeu muitos anos. Aos 17 anos, ele era um grande tenista e agora tem 26 e ainda não está entre os top 100. Acho que isso ainda é um desafio para ele.
GE.Net - Você é um dos poucos tenistas em atividade que enfrentaram Pete Sampras, André Agassi, Rafael Nadal e Roger Federer. Contra quem era mais difícil de jogar?
Lapentti - (4 segundos de silêncio) Eu acho que, em seu melhor dia, talvez o Agassi, porque era um jogador que, dos dois lados, batia muito forte na bola e não te dava respiro, não te dava tempo de nada. Considero que o Sampras foi um melhor jogador em termos de resultados, ganhou muito mais coisas. Mas eu preferia jogar contra o Sampras do que contra o Agassi. (Lapentti perdeu cinco vezes de Agassi e foi derrotado três vezes por Sampras e Federer. Diante de Nadal, ele tem uma vitória e duas derrotas)
GE.Net - Em boas condições físicas, o Nadal não tem rivais à altura no saibro. Se ele jogasse contra os tenistas da sua geração, como o Thomas Muster, o Alex Corretja, o Guga e o Sergi Bruguera, você acha que ele perderia mais jogos e brilharia um pouco menos?
Lapentti - Isso é muito difícil de dizer. É claro que o Guga em seu momento foi o melhor jogador no saibro como o Rafa é agora. Tenho certeza que se eles tivessem jogado um contra o outro, teriam sido batalhas impressionantes. Mas é difícil especular sobre algo que você nunca vai viver.
GE.Net - Atualmente, mesmo os tenistas especializados em quadras rápidas, como o Novak Djokovic e o Andy Roddick, conseguem se sair bem nos torneios de saibro. Você acha que falta um grande jogador de saibro para rivalizar com o Nadal?
Lapentti - Eu acho que tem muitos bons jogadores de saibro, mas o problema é que o Nadal é superior. Fisicamente, é muito superior e é isso que acontece. Mas tem grandes jogadores no saibro.
GE.Net - O seu pai é político e já foi prefeito. Depois de encerrar sua trajetória como jogador, você pensa em seguir a carreira política? O que pretende fazer?
Lapentti - Eu apoio meu pai em tudo que ele faz, mas não gosto de política. Ainda não sei o que vou fazer depois de encerrar a carreira. Eu gostaria de continuar envolvido com o tênis, mas sem viajar permanentemente.
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