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Por Ricardo Vespucci
No dia 14 de agosto de 1914, o jornal Fanfulla, da grande colônia italiana de São Paulo, trazia uma carta endereçada ao editor e assinada por Vicente Ragognetti, adolescente ainda, estudante do Mackenzie e conhecido pela veemência ao defender suas opiniões.
Vicenzo, seu nome de batismo, conclamava a colônia a formar “um clube de futebol exclusivamente de italianos”. Falava em nome também dos amigos Luigi Cervo, de 18 anos, funcionário das indústrias Matarazzo, adepto do futebol e pioneiro do projeto; Luigi Emanuele Marzo, lembrado como o intelectual do grupo; e Ezequiel Simone, empresário já maduro, que se punha à disposição para financiar os gastos com a oficialização do time.
A colônia andava entusiasmada com a visita ao Brasil dos históricos times italianos do Torino e do Pro Vercelli, naquele ano e no anterior. Assim, evoluiu depressa a idéia do novo clube – que atraiu até os italianos sócios do Corinthians – e no dia 26 de agosto de 1914, reunidas 46 pessoas no salão de festas Alhambra, fundou-se a Società Sportiva Palestra Itália.
Com o primeiro uniforme usado em competições oficiais a partir de 1916 – camisa verde com uma larga faixa horizontal verde, no peito a cruz de Savóia, símbolo da realeza italiana –, começava uma jornada que faria do clube o maior vencedor de títulos do futebol brasileiro no século XX e seria chamado de “Academia de Futebol”.
Nem mesmo a Segunda Guerra Mundial, em que a Itália se tornou inimiga do Brasil e o Palestra foi obrigado a trocar o nome, interrompeu a escalada vitoriosa: no ano da mudança, 1942, o clube disputou quase todo o Campeonato Paulista com o antigo nome e só entrou em campo como Palmeiras e de uniforme novo justamente para decidir o título – contra o São Paulo. Ganhou de 3 x 1, terminou invicto. Uma frase definiu a vitória: “O Palestra Italia morreu líder e o Palmeiras nasceu campeão”.
Jogadores históricos
Ademir da Guia, considerado o maior de todos os tempos, jogou 901 partidas, venceu 509 e marcou 153 gols. Ganhou cinco Campeonatos Paulistas, dois Campeonatos Brasileiros e mais sete títulos de expressão. Titular absoluto da camisa 10 durante seus dezesseis anos no clube, de 1961 a 1977.
Waldemar Fiume, zagueiro que pela qualidade técnica jogava também como volante e armador, recebeu o apelido de “Pai da Bola”. Começou no Palestra Itália, em 1941, e jogou 601 vezes, com 337 vitórias, até 1958. Marcou 27 gols. Nunca mudou de clube e, entre outros títulos, conquistou quatro paulistas e a Copa Rio, em 1951.
Luís Pereira, zagueiro clássico e aguerrido, jogou entre 1968 e 1984. Costumava atacar e, em suas 568 partidas, com 283 vitórias, chegou a marcar 35 gols. Ganhou dois Campeonatos Paulistas e foi bicampeão brasileiro. Jogador-símbolo da chamada “segunda academia” do Palmeiras. Titular do Brasil na Copa do Mundo de 1974.
Evair, atacante, o sexto maior artilheiro do clube, com 127 gols em 245 jogos, dos quais 137 vitórias. Estreou em 1991 e se despediu em 1999. De grande habilidade também para armar jogadas, foi bicampeão paulista, bicampeão brasileiro e campeão da Libertadores da América, em 1999. Fundamental na conquista do Paulista de 1993, que encerrou um jejum palmeirense de dezesseis anos sem título.
Marcos, goleiro, estreou em 1999 e ganhou seu maior título no mesmo ano: a Taça Libertadores da América. Salvador do time em inúmeras oportunidades, ganhou o apelido de “São Marcos”. De caráter exemplar, é benquisto até mesmo entre as torcidas rivais. Seu ótimo desempenho o levou à conquista da Copa do Mundo de 2002, como titular do Brasil.
Curiosidades
O Palmeiras foi o primeiro campeão da história do Pacaembu. Inaugurou o estádio em 28 de abril de 1940, goleando o Coritiba por 6 x 2. No domingo seguinte, venceu o Corinthians por 2 x 1 e conquistou a Taça Cidade de São Paulo. Do torneio participou também o Atlético Mineiro.
A Taça Cidade de São Paulo foi a primeira de uma série de conquistas que ficou conhecida como “Cinco coroas”. A segunda coroa foi o Campeonato Paulista de 1950. A terceira, a Taça Cidade de São Paulo de 1951. A quarta, o Torneio Rio-São Paulo do mesmo ano. A quinta, o 1o Torneio Mundial de Clubes Campeões, também em 1951.
O atual distintivo do Palmeiras é usado desde 1959. As oito estrelas nele fazem referência ao mês de fundação do clube, agosto, e ao número de títulos paulistas conquistados pelo clube ainda como Palestra Italia.
Costuma-se dizer que hino do Palmeiras, composto em 1949, tem dois autores: a letra seria de Gennaro Rodrigues e a música, de Antonio Sergi. Mas Rodrigues e Sergi são a mesma pessoa. Explica-se: Antonio Sergi, autor da melodia, que era maestro e professor do Conservatório Dramático de São Paulo – e, além disso, médico cardiologista! –, só raramente compunha letras para suas músicas; quando o fazia, e foi o caso do hino do Palmeiras, usava o pseudônimo de Gennaro Rodrigues.
Em 1942, em plena Guerra Mundial e pressionado pelo governo a trocar o nome italiano por um brasileiro, o Palestra adotou o nome de Sociedade Esportiva Palestra de São Paulo, que teve vida curta pois também foi vetado pelas autoridades. A 20 de setembro, mudou para Sociedade Esportiva Palmeiras. Uns dizem que o novo nome foi escolhido por causa das palmeiras que rodeavam o Parque Antarctica. Para outros, foi uma homenagem à extinta Associação Atlética das Palmeiras, antiga aliada do Palestra.
A rivalidade com o São Paulo F. C. vem de longe. Os palmeirenses nunca perdoaram os tricolores por insuflar as autoridades, mais do que qualquer outro clube, pela mudança de nome do Palestra ItÁlia. Afirmam que o São Paulo queria se aproveitar da suposta vinculação de palestrinos com o fascismo e o nazismo para se apoderar do Parque Antarctica. O clima estava tão pesado que no primeiro jogo depois da mudança, a decisão do Paulista de 1942, o São Paulo abandonou o campo aos 19 minutos do segundo tempo, quando perdia por 3 x 1.
Foi em 1920 que o Palestra Itália, com apoio da Cia. Matarazzo, comprou o campo de futebol do Parque Antarctica, onde mandava seus jogos desde 1917. O Parque Antarctica foi originalmente um espaço de lazer de 300 mil m2 criado em fins do século XIX pela cervejaria para seus funcionários, com lago, coreto, bosque, restaurantes, choperia e áreas esportivas.