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- 14h24
- 04Sep
Cuícas e bandoneões
por Marcos Caetano, blogueiro do ESPN.com.br
Na semana passada eu abordei a decadência dos clubes cariocas e a perda de relevância do Fla x Flu, clássico que foi tema de alguns dos mais gloriosos textos de Nelson Rodrigues. "Há um parentesco óbvio entre o Fluminense e o Flamengo. E como este se gerou no ressentimento, eu diria que os dois são os irmãos Karamazov do futebol brasileiro" - diagnosticou o nosso cronista maior. Na Copa América de 2004, ao ver as seleções de Brasil e Argentina contritas e perfiladas minutos antes do pontapé inicial, no Estádio Nacional de Lima, a comparação do Nelson me voltou à mente. Ora, se Flamengo e Fluminense são os irmãos Karamazov dos clubes, Brasil e Argentina são os Hermanos Karamazov das seleções.
Nelson adorava Dostoievski, mas não sei se era chegado aos amargos e profundos textos do argentino Jorge Luis Borges. Borges dificilmente terá lido algo do Nelson, e com certeza jamais leu uma crônica esportiva. Basta lembrar da palestra que marcou para as cinco da tarde do dia 25 de junho de 1978, na Universidade de Buenos Aires. Para quem não sabe, na mesma data, na mesma hora e a poucos quarteirões do auditório no qual o velho Borges proferia a sua "charla" para uns gatos pingados, a Seleção Argentina adentrava a cancha para conquistar sua primeira Copa do Mundo. Borges, um dos dez maiores escritores da história universal, simplesmente detestava futebol. Ao contrário de Nelson.
As diferenças entre Nelson e Borges ilustram o abismo entre os dois países no campo esportivo. Ninguém discute que os dois rivais são, ao longo da história, os principais produtores de craques do planeta. Entretanto, apesar de contarem com tanto talento, as duas seleções raramente compartilharam o mesmo prato da balança ao longo da história. Nas primeiras copas, a Argentina era uma potência e o Brasil apenas um esboço da extraordinária seleção que viria a ser. Em 1978 e 1986, os favoritos éramos nós, mas a volta olímpica foi deles. Já em 1994 e 2002, a Argentina era a seleção a ser batida, só que o Brasil ficou com a taça. Mesmo nas últimas edições da Copa América, os rivais escancararam suas diferenças: jogando com um time B, o Brasil bateu os vizinhos que usaram sua força máxima, surpreendendo o mundo do futebol.
Neste sábado, os Hermanos Karamazov voltam a trançar seus bigodes. O confronto é absolutamente imprevisível, não apenas quando se trata de adivinhar-lhe o placar, mas mesmo na simples tentativa de imaginar qual será sua dinâmica, se será um jogão ou uma partida tosca. O Brasil chega a Rosário tranquilo com a liderança nas eliminatórias. Só que é muito difícil permanecer tranquilo naquele estádio, onde duas das torcidas mais fanáticas do mundo - a do Rosário Central, "los canallas"; e a do Newell's Old Boys, "los leprosos" - deixam de se tratar por apelidos odiosos para demonstrar todo o seu amor à seleção nacional. Um amor externado na forma de um mar de papel picado. A partida pode perfeitamente repetir o confronto épico de 1978: eletrizante fora de campo, sem que nada de especial tivesse acontecido dentro das quatro linhas. Pressionado pelos rivais ávidos por uma vitória, o time de Dunga pode usar sua arma mais temível e liquidar o jogo nos contra-ataques. Por outro lado, se prevalecer a lógica dos últimos confrontos, em que o favorito sempre perde, os argentinos podem finalmente festejar algo.
No final, alegres cuícas calarão milhares de tristíssimos bandoneões. Ou, num acelerado ritmo de firuletes, os bandoneões farão chorar as cuícas. Meio termo é que não haverá. Porque, quando o assunto é futebol, Brasil e Argentina jamais estarão no mesmo compasso de uma mesma melodia.
Nelson adorava Dostoievski, mas não sei se era chegado aos amargos e profundos textos do argentino Jorge Luis Borges. Borges dificilmente terá lido algo do Nelson, e com certeza jamais leu uma crônica esportiva. Basta lembrar da palestra que marcou para as cinco da tarde do dia 25 de junho de 1978, na Universidade de Buenos Aires. Para quem não sabe, na mesma data, na mesma hora e a poucos quarteirões do auditório no qual o velho Borges proferia a sua "charla" para uns gatos pingados, a Seleção Argentina adentrava a cancha para conquistar sua primeira Copa do Mundo. Borges, um dos dez maiores escritores da história universal, simplesmente detestava futebol. Ao contrário de Nelson.
As diferenças entre Nelson e Borges ilustram o abismo entre os dois países no campo esportivo. Ninguém discute que os dois rivais são, ao longo da história, os principais produtores de craques do planeta. Entretanto, apesar de contarem com tanto talento, as duas seleções raramente compartilharam o mesmo prato da balança ao longo da história. Nas primeiras copas, a Argentina era uma potência e o Brasil apenas um esboço da extraordinária seleção que viria a ser. Em 1978 e 1986, os favoritos éramos nós, mas a volta olímpica foi deles. Já em 1994 e 2002, a Argentina era a seleção a ser batida, só que o Brasil ficou com a taça. Mesmo nas últimas edições da Copa América, os rivais escancararam suas diferenças: jogando com um time B, o Brasil bateu os vizinhos que usaram sua força máxima, surpreendendo o mundo do futebol.
Neste sábado, os Hermanos Karamazov voltam a trançar seus bigodes. O confronto é absolutamente imprevisível, não apenas quando se trata de adivinhar-lhe o placar, mas mesmo na simples tentativa de imaginar qual será sua dinâmica, se será um jogão ou uma partida tosca. O Brasil chega a Rosário tranquilo com a liderança nas eliminatórias. Só que é muito difícil permanecer tranquilo naquele estádio, onde duas das torcidas mais fanáticas do mundo - a do Rosário Central, "los canallas"; e a do Newell's Old Boys, "los leprosos" - deixam de se tratar por apelidos odiosos para demonstrar todo o seu amor à seleção nacional. Um amor externado na forma de um mar de papel picado. A partida pode perfeitamente repetir o confronto épico de 1978: eletrizante fora de campo, sem que nada de especial tivesse acontecido dentro das quatro linhas. Pressionado pelos rivais ávidos por uma vitória, o time de Dunga pode usar sua arma mais temível e liquidar o jogo nos contra-ataques. Por outro lado, se prevalecer a lógica dos últimos confrontos, em que o favorito sempre perde, os argentinos podem finalmente festejar algo.
No final, alegres cuícas calarão milhares de tristíssimos bandoneões. Ou, num acelerado ritmo de firuletes, os bandoneões farão chorar as cuícas. Meio termo é que não haverá. Porque, quando o assunto é futebol, Brasil e Argentina jamais estarão no mesmo compasso de uma mesma melodia.
- 14h30
- 20Nov
/marcoscaetano
Lógica da emoção
Quanto mais eu ganho experiência nessa 'arte' de analisar o futebol, mais me convenço de que ele está muito mais para a poesia do que para a matemática
- 14h44
- 13Nov
/marcoscaetano
Juiz ladrão!
Quem tem mais de 30 anos de idade certamente já ouviu a expressão aí do título, gritada a plenos pulmões por um torcedor enfurecido ou em coro, por toda a torcida
- 19h13
- 06Nov
/marcoscaetano
Na rabeira
Não se fala em outra coisa no país do futebol: o Campeonato Brasileiro de 2009 é o de final mais imprevisível desde que foi adotado o sistema de pontos corridos
Página do Marcos Caetano