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- 16h30
- 09Feb
Um sonho americano
por José Trajano, especial para a Revista ESPN
Com certeza imaginam que vá falar da briga pelo Brasileirão. Não me perguntem quem será campeão, porque não tenho a menor ideia. Ou, então, sobre a luta dos que estão no fundo do poço. Ou mesmo sobre a volta de Vasco e Guarani à elite. Nada disso.
Não estou aí para coisas bobas. Futebol, para mim, é coisa séria. Vem do fundo da alma. Só tenho interesse por meu time. Não dou a mínima para a Seleção. Quem sabe mais para a frente, quando a bola começar a rolar na Copa. De agora até o final de novembro, mais precisamente dia 28, é América na cabeça. O resto é o resto.
Só então saberei se o América foi para o céu ou se decidiu morar de vez no inferno. Mas enquanto não chegamos lá, o que é que eu faço? Pensei em pedir férias e me mudar para a Baixada Fluminense. Morar pertinho de Edson Passos, com vista para o Estádio Giulite Coutinho. Poderia assistir aos treinos e jogos sem precisar navegar feito louco pela internet, atrás de notícia. Porém fui aconselhado a não arriscar porque a barra anda pesada: “Sossega um pouco o facho, porque desse jeito você pode ter um troço.”
Pensei em me internar em algum templo budista. Ou pedir uma vaga no Mosteiro de São Bento, onde estudei. Não tive coragem. É tudo muito parado. Passou pela cabeça também fazer vários cursos, principalmente na hora das partidas: culinária, tricô, ora-tó-ria, caligrafia, esperanto, natação, mas não encarei. Não, não dá para ficar sem ouvir os jogos com os meninos do América na Rede, um grupo de doidos que transmite pela internet no site do clube.
Torcer por um time é a melhor e pior coisa do mundo. No meu caso tem sido a pior. Não desisto porque não dá para viver sem essa paixão. Tudo o que quero é ver o América disputar de novo o campeonato da minha cidade. Como na poesia de Fernando Pessoa ou Alberto Caeiro, o América é o rio da minha aldeia. Por isso, o Giulite Coutinho é mais belo que o Maracanã, nossa camisa vermelha é a mais bonita e o hino do Lamartine Babo não tem rival.
Tenho sonhado muito. Quase sempre o mesmo sonho. Na beira de um cais, à noite, observando as estrelas lá longe, no fundão do céu — eu, tia Ruth, a querida torcedora símbolo de 84 anos, Romário, o presidente do clube, os jogadores, o técnico Clóvis, gente da torcida de hoje e de ontem, como meu velho pai, meu filho Pedro, todos em silêncio. O dia vem aos poucos com tom avermelhado, e o único barulho que se ouve é o do movimento dos barcos ancorados. É uma enorme sensação de tranquilidade, de paz. Estamos sempre ali, esperando o sol chegar. Só que ele nunca chega.
Enquanto isso, tia Ruth, encoste a cabeça no meu ombro e durma. Vou acordá-la quando o sol nascer. Quem sabe em poucos dias.
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