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- 09h57
- 05Oct
O Brasil já vai à guerra
por José Inácio Werneck, colunista do ESPN.com.br
O aspecto mais positivo da escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 2016 está em que talvez afinal tenhamos um projeto esportivo nacional competente, ao contrário dos últimos anos, em que muita verba foi mal empregada, muita falação foi deitada pelas autoridades e poucos efeitos práticos conseguimos nas competições.
O segundo aspecto mais positivo está em que talvez afinal saiam as obras de infra-estrutura há tantos anos prometidas para o Rio de Janeiro mas nunca cumpridas, ou cumpridas apenas pela metade, ou mal cumpridas e mal fiscalizadas, com gastos excessivos - e, como no ítem anterior, resultados que deixaram a desejar. Ainda no último mês de abril estive em visita ao Rio e vi uma cidade mal tratada, com trânsito caótico e a eterna poluição em suas praias, baías e lagoas. Basta dizer que, em uma regata internacional, o barco do brasileiro Torben Grael ficou emaranhado em lixo flutuante. O melhor que se pode dizer, a respeito do episódio, é que felizmente o barco era de um brasileiro, não de um estrangeiro.
O terceiro aspecto mais positivo está em que talvez alguma coisa de mais eficiente se faça quanto à eterna falta de segurança do Rio de Janeiro. Basta lembrar que, há coisa de duas semanas, o estampido do escapamento de duas motos levou motoristas a abandonar seus carros no túnel Dois Irmãos e fugir espavoridos em direção ao Leblon, acreditando que eram vítimas de um arrastão originado na favela da Rocinha - provocando um gigantesco congestionamento, às oito horas da noite.
É uma população estressada.
Ao longo de décadas as vozes de esquerda vêm pedindo uma solução para a criminalidade no Rio de Janeiro com melhor distribuição de renda. Ao longo de décadas as vozes de direita vêm pedindo uma solução através de mais repressão policial. O problema, é claro, tem que ser atacado pelos dois lados, e talvez algo de mais prático se faça agora.
Há alguns anos, quando o Rio e São Paulo disputavam o direito de serem candidatas às Olimpíadas de 2012 (Brasília já fracassara em sua candidatura para 2000 e o Rio fracassara em sua candidatura para 2004), escrevi um tópico no Jornal do Brasil baseado em um velho samba de Billy Blanco (“moço, olha o vexame, o ambiente exige respeito”), o que levou o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, a me ameaçar com um processo na Justiça.
Fiquei estupefato, primeiro porque conheço Nuzman desde que ele era jogador de vôlei e vivia no Maracanã torcendo pelo Botafogo. Sempre mantivéramos relacionamento cordial. Eu teria publicado qualquer reparo que ele tivesse me mandado, por e-mail ou mesmo telefonema, mas, sob ameaça de processo, recusei-me a tomar conhecimento da reclamação. Em segundo lugar, fiquei estupefato porque era uma simples questão de opinião. Em minha opinião houvera vexame, na dele não houvera. Por que armar tal cavalo de batalha?
De lá para cá, concluí que Nuzman simplesmente foi mal orientado por um advogado do COB desejoso de mostrar serviço.
Agora, ao ver nossos cartodas e políticos embrulhados na bandeira nacional em Copenhagen, lembro-me de outra canção, esta de Juca Chaves: “Comenta o Zé Povinho, governo varonil, coitado, coitadinho, do Banco do Brasil, ah, quase faliu/ Enquanto uns idiotas aplaudem as medidas, o povo sem comida escuta as tais lorotas, dos patriotas”.
E aí está o perigo. Tudo o que escrevi acima de positivo irá por água abaixo muito rapidamente se não houver total transparência no que se fizer para as Olimpíadas. Nosso projeto foi mais caro do que o de Chicago, Madrid e Tóquio. O presidente da República disse que o Brasil “ainda não é os Estados Unidos, mas vai chegar lá”. Sugeriu também que merecemos entrar para o G-7, no momento exato em que as potências mundiais falam em acabar com o G-7 e substituí-lo por um G-4, constituído simplesmente pelos Estados Unidos, União Européia, Japão e China.
As Olimpíadas, por si só, não nos colocam no Primeiro Mundo. O México sediou duas vezes a Copa do Mundo e uma vez as Olimpíadas, mas continua pobre e corrupto, dominado pelas gangues de drogas.
Gangues de drogas que também dominam as favelas do Rio, colocando o problema da criminalidade em alçada bem superior ao de simples delegados de polícia.
O Rio era o favorito sentimental e arrastou os votos de Chicago e Tóquio. Seu projeto também era bem superior aos de 2004 e 2012, já para nem falar do de Brasília em 2000.
Mas contenhamos a euforia. A sociedade terá que estar muito vigilante, para exigir total transparência no que nossos políticos e cartolas fizeram daqui para a frente.
(Assistam também aos meu comentários em vídeo aqui mesmo no site da ESPN Brasil)
O segundo aspecto mais positivo está em que talvez afinal saiam as obras de infra-estrutura há tantos anos prometidas para o Rio de Janeiro mas nunca cumpridas, ou cumpridas apenas pela metade, ou mal cumpridas e mal fiscalizadas, com gastos excessivos - e, como no ítem anterior, resultados que deixaram a desejar. Ainda no último mês de abril estive em visita ao Rio e vi uma cidade mal tratada, com trânsito caótico e a eterna poluição em suas praias, baías e lagoas. Basta dizer que, em uma regata internacional, o barco do brasileiro Torben Grael ficou emaranhado em lixo flutuante. O melhor que se pode dizer, a respeito do episódio, é que felizmente o barco era de um brasileiro, não de um estrangeiro.
O terceiro aspecto mais positivo está em que talvez alguma coisa de mais eficiente se faça quanto à eterna falta de segurança do Rio de Janeiro. Basta lembrar que, há coisa de duas semanas, o estampido do escapamento de duas motos levou motoristas a abandonar seus carros no túnel Dois Irmãos e fugir espavoridos em direção ao Leblon, acreditando que eram vítimas de um arrastão originado na favela da Rocinha - provocando um gigantesco congestionamento, às oito horas da noite.
É uma população estressada.
Ao longo de décadas as vozes de esquerda vêm pedindo uma solução para a criminalidade no Rio de Janeiro com melhor distribuição de renda. Ao longo de décadas as vozes de direita vêm pedindo uma solução através de mais repressão policial. O problema, é claro, tem que ser atacado pelos dois lados, e talvez algo de mais prático se faça agora.
Há alguns anos, quando o Rio e São Paulo disputavam o direito de serem candidatas às Olimpíadas de 2012 (Brasília já fracassara em sua candidatura para 2000 e o Rio fracassara em sua candidatura para 2004), escrevi um tópico no Jornal do Brasil baseado em um velho samba de Billy Blanco (“moço, olha o vexame, o ambiente exige respeito”), o que levou o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, a me ameaçar com um processo na Justiça.
Fiquei estupefato, primeiro porque conheço Nuzman desde que ele era jogador de vôlei e vivia no Maracanã torcendo pelo Botafogo. Sempre mantivéramos relacionamento cordial. Eu teria publicado qualquer reparo que ele tivesse me mandado, por e-mail ou mesmo telefonema, mas, sob ameaça de processo, recusei-me a tomar conhecimento da reclamação. Em segundo lugar, fiquei estupefato porque era uma simples questão de opinião. Em minha opinião houvera vexame, na dele não houvera. Por que armar tal cavalo de batalha?
De lá para cá, concluí que Nuzman simplesmente foi mal orientado por um advogado do COB desejoso de mostrar serviço.
Agora, ao ver nossos cartodas e políticos embrulhados na bandeira nacional em Copenhagen, lembro-me de outra canção, esta de Juca Chaves: “Comenta o Zé Povinho, governo varonil, coitado, coitadinho, do Banco do Brasil, ah, quase faliu/ Enquanto uns idiotas aplaudem as medidas, o povo sem comida escuta as tais lorotas, dos patriotas”.
E aí está o perigo. Tudo o que escrevi acima de positivo irá por água abaixo muito rapidamente se não houver total transparência no que se fizer para as Olimpíadas. Nosso projeto foi mais caro do que o de Chicago, Madrid e Tóquio. O presidente da República disse que o Brasil “ainda não é os Estados Unidos, mas vai chegar lá”. Sugeriu também que merecemos entrar para o G-7, no momento exato em que as potências mundiais falam em acabar com o G-7 e substituí-lo por um G-4, constituído simplesmente pelos Estados Unidos, União Européia, Japão e China.
As Olimpíadas, por si só, não nos colocam no Primeiro Mundo. O México sediou duas vezes a Copa do Mundo e uma vez as Olimpíadas, mas continua pobre e corrupto, dominado pelas gangues de drogas.
Gangues de drogas que também dominam as favelas do Rio, colocando o problema da criminalidade em alçada bem superior ao de simples delegados de polícia.
O Rio era o favorito sentimental e arrastou os votos de Chicago e Tóquio. Seu projeto também era bem superior aos de 2004 e 2012, já para nem falar do de Brasília em 2000.
Mas contenhamos a euforia. A sociedade terá que estar muito vigilante, para exigir total transparência no que nossos políticos e cartolas fizeram daqui para a frente.
(Assistam também aos meu comentários em vídeo aqui mesmo no site da ESPN Brasil)
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