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por Ricardo Fonseca
O golfe é o mais antigo esporte praticado com bola. Suas origens remontam à Antiguidade, onde pastores usavam seus cajados para arremessar pedras arredondadas contra alvos fixos. Indícios desse jogo rudimentar aparecem na história de povos da Europa, Ásia, África e até na América Pré-colombiana.
O primeiro documento conhecido sobre um jogo muito parecido com o golfe (chuiwan), jogado com 10 tacos, aparece no livro chinês Registros de Dongxuan (東軒), escrito por Wei Tai, da Dinastia Song, no século 11. O primeiro relato europeu de esporte semelhante (kolf), praticado na Holanda, é de 26 de fevereiro de 1297.
Mas o golfe como o conhecemos hoje só tem seu primeiro documento histórico em 6 de março de 1457, na Escócia, quando o Rei James II, em decreto, proibiu a prática do golfe e do futebol que estariam prejudicando o treinamento dos arqueiros e a defesa da cidade.
As primeiras Regras de Golfe, escritas em 1744 pela Honorável Companhia dos Golfistas de Edimburgo, da Escócia, para um torneio local, permanecem praticamente as mesmas por mais de dois séculos e meio. Da Escócia o golfe foi levado para a Inglaterra e de lá para todo o mundo, junto com a expansão do Império Britânico.
O golfe chegou ao Brasil no final do século 19, trazido por engenheiros e técnicos ingleses que viram construir nossas primeiras ferrovias. Eles fundaram o primeiro clube do Brasil, o São Paulo Golf Club, em 1901, ao lado da Estação da Luz. O campo foi transferido anos depois para o Morro dos Ingleses, na região da Av. Paulista, antes de ter sua sede definitiva em Santo Amaro.
Muitos campos de golfe construídos por ingleses e americanos perto de portos movimentados, como Santos e Salvador, desapareceram, mas logo o esporte se espalhou por todo o Brasil, também com grande ajuda da colônia japonesa. Hoje existem mais de 140 campos de golfe no Brasil – 40 deles em São Paulo – e mais de 25 mil jogadores.
O organização máxima do esporte é a Federação Internacional de Golfe, que congrega entidades de 116 países, incluindo a Confederação Brasileira de Golfe (CBG), e é comandada em conjunto pelo Royal & Anciente Golf Club de St. Andrews (R&A), que dita as regras do golfe em quase todo o mundo, e a United States Golf Association (USGA), que rege o esporte nos Estados Unidos e México.
O golfe esteve nos Jogos Olímpicos de 1900 e 1904, deixando de ser jogado em 1908 por causa de uma briga entre ingleses e americanos. O golfe continua sendo um esporte olímpico, filiado e reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), e pretende voltar a se apresentar nos Jogos Olímpicos de 2016, graças ao esforço unificado de todas as suas entidades.
Paixão à Primeira Vista
por: Ricardo Fonseca*
Em 30 anos de trabalho como jornalista esportivo, nunca conheci esporte mais envolvente do que o golfe. Bastou entender as regras – muito mais simples do que muita gente imagina – e assistir a um grande torneio internacional disputado em São Paulo, em 1980, para me apaixonar definitivamente pelo esporte.
Uma quadra de tênis é igual em qualquer lugar do mundo. Um campo de futebol do Brasil, pouco varia em relação a outro no Japão. Mas não existem dois campos de golfe iguais, sequer parecidos, assim como não existem dois buracos iguais. E mesmo quem joga dia após dias no mesmo campo, dificilmente irá dar uma tacada igual a outra que já tenha experimentado. Renovar-se a cada dia é um dos grandes fascínios desse esporte.
O golfe é ao mesmo tempo um esporte individual e coletivo. Você pode jogar campeonatos contra mais de uma centena de jogadores, mas sempre terá a você mesmo como principal adversário. O desafio do golfe é se superar. Jogar hoje melhor do que ontem. É saber que a bola está lá, parada, que você pode escolher qualquer um dos 14 tacos de sua bolsa, planejar a jogada com calma e que ainda assim será grande a possibilidade de errar. Nenhum esporte te traz de volta à realidade tão rapidamente.
Graças ao sistema de handicaps, qualquer pessoa pode jogar golfe contra outra. Um iniciante pode desafiar Tiger Woods, uma criança a um adulto, algo impensável no tênis, onde você não consegue sequer bater bola com um jogador de outro nível. O handicap funciona mais ou menos assim: se eu costumo completar os 18 buracos do campo com uma média de 80 tacadas e você faz o mesmo com 70, quando nos enfrentarmos você vai me dar 10 tacadas de vantagem.
Outra coisa que pouca gente compreende é que no golfe todos são seus próprios árbitros. Você mesmo denuncia suas faltas, aplica-se as penalidades e conta as próprias tacadas. Não é incomum – mesmo em torneios profissionais com milhões de dólares em disputa – um jogador se auto-desclassificar por ter infringido as regras. Não existe nada melhor para ajudar a moldar um caráter.
A idéia de que o golfe é um esporte para milionários, velhos e barrigudos não podia ser mais falsa. Nem mesmo Tiger Woods, um atleta com preparação física como poucos, foi capaz ainda de eliminar esse preconceito. Golfe é um esporte jovem, alegre, ecológico e extremamente competitivo e que exige muita preparação física dos atletas de alto desempenho. Tente jogar subindo e descendo morro, seis quilômetros por dia, cinco dias por semana, com a mesma precisão. Mas o golfe permite que velhos e barrigudos pratiquem o esporte com o mesmo prazer.
Muita gente acha estranho eu comentar e escrever sobre golfe sem nunca ter jogado. O curioso é que eu nunca ouvi isso quando fazia crônicas de Fórmula-1 sem nunca ter corrido sequer de kart, ou deitava falação sobre futebol, sendo um perna-de-pau.
De cada 100 pessoas que experimentam o golfe, 92 não largam nunca mais. Não conheço ex-golfista.
Por causa de uma cirurgia, nunca pude jogar golfe, mas isso não me impediu também de me apaixonar pelo esporte. Sorte do golfe, que perdeu um jogador no máximo mediano e ganhou um jornalista apaixonado.
*Ricardo Fonseca, 52 anos, é, desde 1997, o editor-chefe do programa semanal Por Dentro do Golfe, da ESPN, onde trabalha também comentarista de golfe. Em sua carreira, foi repórter, repórter-especial e editor de esportes nos jornais O Globo (1980-1990), Jornal do Brasil (1990-1995) e Estado de São Paulo (1996); editor-chefe das revistas Golf Sport (1993-2001) Golf Life (2003-2007) e desde abril de 2007 é o editor-chefe da Revista Golf & Turismo e do Guia do Golfe Brasileiro. Nunca jogou golfe.