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- 17h10
- 07Feb
Com vitórias nas três últimas rodadas terminei com 6 pontos, o que não foi o suficiente para manter o rating, mas o mais importante foi ter jogado boas partidas e agora estar um pouco mais aquecido para o Aeroflot Open, que começa depois de amanhã. Nestas últimas partidas controlei melhor o tempo (que era de 1h30 KO com acréscimo), e calculei relativamente bem nas posições complexas. Uma partida interessante foi a vitória contra o GM Igor Naumkin, pela oitava rodada.
Crédito da imagem: Giovanni Vescovi
Algumas pessoas já se adiantaram e postaram comentários positivos sobre a partida, então aproveito e deixo-a abaixo.
Naumkin – Vescovi
Moscou, 06.02.2010
1.d4 Cf6 2.c4 e6 3.Cf3 b6 4.g3 Bb7 5.Bg2 Be7 6.Cc3 Ce4 7.Bd2 Bf6 8.0-0 0-0 9.Tc1 c5 10.d5 exd5 11.cxd5 Cxd2 12.Cxd2 d6 13.Cde4 Be5 14.Dd2 Ba6 15.f4 Bd4 16.Rh1 De7 17.Tfe1 g6 18.e3 Bg7 19.g4 Cd7 20.g5 h6 21.h4 b5 22.a3 Tac8 23.Bf3 Cb6 24.b3 Bb7 25.gxh6 Bxh6 26.Cg5 Tfe8 27.e4 b4 28.axb4 c4! 29.bxc4 Txc4 30.e5 dxe5! 31.Txe5 Dxe5! 32.fxe5 Txh4 33.Rg1 Txe5 34.Df2 Txg5 35.Rf1 Tf4 36.Ce2 Ba6 37.Re1 Bxe2 38.Rxe2 Te5 39.Rd1 Txd5 40.Re1 Txf3 e as brancas abandonaram – a dama não resiste contra torre, duas peças e dois peões pretos.
- 18h06
- 04Feb
Crédito da imagem: Chessbase
Diferentemente do Aeroflot Open, que se inicia logo após o término do Moscow Open, neste torneio não há rating mínimo para participar no torneio A, e por isso temos mais de 150 participantes. Poucos estrangeiros resolveram encarar o frio, a distância e a escola russa, mas há alguns representantes latinos. Além de mim, o GM venezuelano Iturrizaga e o colombiano Jorge Guerrero defendem nosso continente.
Minha participação até o momento está fraca, principalmente em razão da derrota na quinta rodada contra Mikhail Krylov. No apuro de tempo ambos os jogadores cometeram erros e ao invés de jogar 59.Dxc6 ganhando (após uma sequencia precisa) eu optei por 59.Dxd8 que garantia o empate. Garantiria normalmente, mas ao invés de 61.Bh4 eu dei um xeque precipitado com 61.Dh5+ e ao trocar as damas as pretas já passaram a ter boas chances de vitória, como de fato ocorreu por volta do lance 100.
Nas outras partidas tive uma boa vitória na primeira rodada e quatro empates. De pretas o primeiro objetivo, que era corrigir as falhas de abertura (nem convém lembrar o desastre ocorrido em janeiro na Turquia), foi alcançado. De brancas o empate na terceira rodada deixou um gosto ruim, pois não reagi da melhor forma contra a novidade de meu adversário e permiti que ele igualasse com a combinação 13...Cxe4. Nas minhas análises eu havia previsto apenas 14.Dxe4 Bxg5 15.Dxc6 com bom jogo, mas não vi o xeque intermediário 14...Db5+, sendo então forçado a aceitar a igualdade completa após 14.Dxc6 Dd5.
Aproveitando este post, não pude deixar de notar a quantidade de comentários que a partida com Radjabov causou. Agradeço a todos, inclusive aqueles que colocaram a lenha na fogueira, mas principalmente aqueles que realmente torcem pelos brasileiros e saíram em minha defesa. De fato, não é segredo minha má forma e despreparo nas aberturas – embora não comprometa tanto os resultados no Brasil e na América Latina – e essa falha ficou latente quando enfrentei um pessoal acima dos 2700. Já era de se esperar algum tipo de problema, afinal foram três anos sem um estudo sério, mas confesso que fiquei aliviado quando o martírio terminou. É a Lei de Murphy...
Crédito da imagem: Chessbase
Nesta segunda edição do evento a vitória ficou com o GM Alexandr Fier ao somar 9 pontos em 13 possíveis. A derrota para Marcus Vinicius Santos, o “Ovelha”, permitiu que outros jogadores dividissem o título: os Mestres Internacionais Everaldo Matsuura e Felipe El Debs também somaram 9 pontos e conquistaram normas de GM. Outro participante a conquistar a norma de GM foi o argentino Sandro Mareco.
O campeão do ano passado, o GM Rafael Leitão, não repetiu a boa atuação e cedeu muitos empates, terminando invicto, mas somando apenas 8,5 pontos. Com relação aos combates, uma partida importante foi Leitão-Fier, de grande valor teórico. Nesta variante da Defesa Grunfeld as brancas sacrificam uma torre, mas a avaliação anterior de que o ataque não rende mais que o empate não ficou alterada, apesar das tentativas de Rafael.
Classificação Final
1. Alexandr Fier (BRA) 9
2. Felipe El Debs (BRA) 9
3. Everaldo Matsuura (BRA) 9
4. Sandro Mareco (ARG) 8,5
5. Rafael Leitão (BRA) 8,5
6. Osvaldo Zambrana (BOL) 8,5
7. Krikor Mekhitarian (BRA) 7,5
8. Horacio Daher (ESP) 7
9. Diego Flores (ARG) 7
10. Andres Rodriguez (URU) 6
11. Dragan Stamenkovic (SRB) 4,5
12. Marcus Vinicius Santos (BRA) 3,5
13. Ricardo Name (BRA) 2
14. Gilberto de Nucci (BRA) 1
- 21h39
- 11Jan
Vale a pena reproduzir os lances:
Brancas: GM Giovanni Vescovi
Pretas: GM Teimour Radjabov
Bursa, 11.01.2010
1.d4 Cf6 2.c4 g6 3.Cc3 Bg7 4.e4 d6 5.Cf3 0-0 6.h3 e5 7.d5 Ch5 8.g3 a5 9.Bg2 Ca6 10.0-0 Cc5 11.Be3 Bd7 12.Ce1 b6 13.Rh2 De8 14.Bf3 f5! 15.exf5 e4 16.Be2 Bxf5 17.g4 De5+ 18.Rg1 Cf4 19.Bxf4 Dxf4 20.Cg2 Dh6 21.gxf5 gxf5 22.f4 Dxh3 23.Dd2 Rf7!! 24.Tfe1 Tg8 25.Bf1 Cd3 26.Cb5 Bh6! 27.Te3 Cxf4! 28.Txh3 Cxh3+ 29.Rh2 Bxd2 30.Rxh3 Tg5 31.Td1 Tag8 32.Txd2 Th5+ 33.Ch4 Tg4 34.Rh2 Tgxh4+ 35.Rg1 Th1+ e as brancas abandonaram (0-1)
Minha preparação foi bem até o lance 13. O plano de 8.g3 já havia sido jogado, mas após 8...a5 as brancas normalmente jogam 9.Be2 Ca6 10.Ch2 Cf6 11.Cg4 h5 com jogo equilibrado. A primeira posição importante é após meu lance 14.Bf3. O cidadão normal jogaria com 14...Cf6 e meu plano seria jogar 15.Cd3 para trocar os cavalos e pressionar a ala da dama. Meu adversário pensou bastante e resolveu entrar nas complicações. Mérito pela bravura, mas objetivamente uma decisão perigosa.
Crédito da imagem: TSF
Eu não pensei duas vezes para embarcar na confusão e ficar com a peça a mais e tentar segurar o ataque. A segunda posição crítica é após 21...gxf5. Uma abordagem mais segura seria jogar 22.Dc1 e permitir o avanço 22...f4, para então poder defender o peão de H com 23.Bg4. É difícil dizer o que era melhor, ainda mais sem prever a brilhante ideia que as pretas jogaram na partida. O fato é que eu preferi sacrificar o peão e abrir meu rei para poder ter um jogo mais ativo. Se as brancas conseguirem jogar De3 e depois Cb5 teriam boas perspectivas.
Mas como a história não é feita de “se...”, Radjabov encontrou um lance brilhante: 23...Rf7!! Essa é a posição crítica. Evidentemente meu objetivo era jogar o natural 24.De3, mas então as pretas responderiam com 24...Bd4!! entregando a segunda peça! Após 25.Dxd4 Tg8 26.Tf2 Tg6 27.Bf1 Tag8 28.Td2 Th6 29.Rf2 Dg3+ 30.Re2 Th1 eu não via como minhas peças poderiam me salvar, mas sentia que poderia ter algum recurso antes. Nas análises post-mortem apareceu a ideia 31.Df2 Dg4 32.Re1 Dh3 33.Ce3 Tg3. Essa é apenas uma das inúmeras possibilidades.
Durante a partida passei a procurar alternativas e decidi jogar 24.Tfe1 para ganhar tempos na defesa. Eu precisava expulsar a dama de h3, e parecia preferível deixar de ganhar a segunda peça para alcançar esse objetivo. Ocorre que eu não percebi um outro tema sutil: 26...Bh6! seguido de 27...Cxf4! é decisivo.
- 22h19
- 09Jan
Crédito da imagem: TSF
Mais uma vez o (principal) problema foi no primeiro tabuleiro. No terceiro tabuleiro Fier novamente deixou os torcedores – tanto aí no Brasil quanto seus colegas de equipe – com o coração na mão jogando sua Defesa Benoni, mas outra vez se safou com um empate, que não deixa de ser excelente resultado considerando seu adversário, GM Gabriel Sargissian 2680.
Milos não chegou a ter muita coisa, embora fosse visível que seu adversário não se sentia confortável. O empate foi natural, considerando que as pretas não tinham fraquezas no final de damas e bispos. Rafael enfrentou o experiente Akopian (2678), e jogou uma partida técnica. Em um momento sofreu leve pressão, mas se defendeu e as pretas superestimaram o golpe ...Bh3+. No último lance do controle deixou passar um lindo lance – 40.Bf6 – que levaria à vitória. Terminou em empate.
Eu enfrentei o GM Aronian, que com seus 2786 de rating é o mais rankeado dos participantes dessa Copa do Mundo. De novo enfrentei a Abertura Catalã e perdi. De 2007 para cá a teoria evoluiu bastante e cada ordem de lances tem suas filigranas. Procurei uma estrutura típica da India da Dama, onde as brancas ficam com leve vantagem, mas o fato de as brancas não terem jogado b2-b3 causa maiores dificuldades para as pretas. Tanto que as brancas não pensaram muito para fazer o sacrifício posicional de qualidade com 13.Da4 e 14.Txc6.
No match de hoje tínhamos grande esperança de um resultado positivo. Rafael não teve dificuldades para igualar com as pretas, mostrando seu bom preparo teórico. Chegou a ter alguma chance, mas não foi preciso e acabou tendo que se contentar com o empate. Milos de pretas também estava tranquilo com sua Defesa India da Dama.
Crédito da imagem: TSF
O problema hoje foi justamente o tabuleiro onde eu achava que poderíamos tirar vantagem. Fier resolveu abrir com 1.e4 e jogou sua preparação na aguda variante Zaitsev da Abertura Espanhola (Ruy Lopez). Jogou rápido um Cxb5 que fez seu adversário pensar um pouco. Mas com pouca profundidade na preparação acabou tendo uma cegueira tática ao levar o golpe ...Txe4! Essa derrota rápida foi dolorosa para a equipe.
Eu enfrentei o super teórico Vasilios Kotronias, que já foi segundo de feras como Shirov, Topalov e outros. Ele optou pela Defesa India do Rei e eu joguei com 6.h3, baseado na recente partida Carlsen-Topalov, jogada em setembro de 2009. Nossa partida seguiu da mesma forma com 6...e5 7.d5 Ca6 8.Be3, porém aqui ele melhorou com 8...Ch5. Definitivamente as brancas precisam encontrar algo nessa linha, pois eu tive que entrar numa posição arriscada onde instintivamente estava evidente que as pretas tinham bom jogo. Até agora ainda não encontramos nada concreto para as pretas, mas tampouco para as brancas. Análises superficiais apontam para um equilíbrio, como na partida, que terminou em empate.
Agora a esperança era que Milos conseguisse a vitória, já que estávamos perdendo por 2 a 1. Ele tinha uma posição boa, mas as brancas estavam seguras. A única chance era abrir a posição para o bispo poder ganhar vida na grande diagonal, e isso teria que ser através da ruptura ...c6-c5. Quando Milos finalmente conseguiu fazer a dita ruptura... a posição desmoronou. A verdade é que ele não queria permitir o empate com o golpe ...Txc5 Cd6!! e acabou fazendo uma séria concessão estratégica. Podemos dizer que foi uma tentativa kamikaze de tentar ajudar a equipe. Não deu certo e perdemos esse match por 3 a 1.
No mais, impressionante vitória de Nakamura com as pretas contra Gelfand, ajudando os EUA a manter a liderança. Também muito instrutivo o final de torres em que Sasikiran derrotou Aronian. Ontem o match marcante foi Russia 2,5 x 1,5 Azerbaijão, com belas atuações de Mamedyarov contra Morozevich, extremo sangue frio de Grischuk que defendeu uma novidade teórica de Gashimov com o espetacular ...Th7 e terminou levando seu rei até b1, no terreno inimigo, e ganhando uma bela partida. Amanhá temos o duelo EUA – Brasil.
Crédito da imagem: TSF
- 21h58
- 07Jan
Hoje perdemos para Israel, mas milagrosamente tivemos uma chance de empatar o match. Digo milagrosamente porque a certa altura os três primeiros tabuleiros estavam muito mal, porém Sutovsky e Postny deixaram Rafael e Fier escaparem. Eu não tive a mesma sorte e perdi rapidamente numa Abertura Catalã. Minha preparação foi falha, pois pretendia repetir a Defesa India da Dama, mas não consegui encontrar uma linha satisfatória e em cima da hora resolvi tentar uma Ortodoxa. Meu adversário preferiu a Catalã e eu não percebi que ele já havia jogado 12.Cd2 contra Mamedyarov no ano passado. Respondi com uma novidade no tabuleiro – 12.Bb7 – baseado em um cálculo equivocado numa linha longa.

Equipe titular do Brasil: Vescovi, Leitão, Fier e Milos
A nossa esperança estava na partida de Milos, que apertou bem com as brancas e tirou uma leve vantagem, porém confortável. Aos poucos suas chances foram aumentando, mas a posição vulnerável de seu rei sempre dava algum contrajogo ao adversário. No final o israelense não jogou um lance simples ...Dxe3 e quase perdeu. Milos deveria ter tentado jogar um Df4+ seguido de Dd4+ e depois optar entre Tb2 ou Tf6. Foi pena.
O match mais esperado da rodada foi o duelo entre russos e americanos. A Rússia atropelou nos tabuleiros 3 e 4, e Morozevich apertou bastante de pretas no tabuleiro 2, mas no final empatou, assim como Grischuk-Nakamura, encerrando a fatura em 3 a 1.
A surpresa ficou por conta dos indianos, que se recuperaram da derrota para os americanos com uma inesperada vitória sobre o Azerbaijão, deixando a disputa mais acirrada, já que agora EUA, Armênia, Rússia, India, Azerbaijão e Israel possuem 2 vitórias e 1 derrota.
- 20h49
- 06Jan
Eu joguei contra o GM Ahmed Adly, campeão mundial juvenil de 2007. Adly não conhecia a variante com 5.Bf4 na Defesa Ortodoxa e acabou jogando um lance antigo e esquecido pela teoria. Nossa partida foi parecida com Euwe-Taimanov, jogada no match de Candidatos em 1953, mas as brancas não conseguiram nada em nenhum dos casos. Após uma cegueira tática com 19.e5? fiquei em posição inferior e poderia ter sofrido mais se meu adversário tivesse jogado com maior precisão. No fim foi o segundo empate do match.
Mas enquanto isso tanto Rafael quanto Fier estavam com grande vantagem e nossa situação estava tranquila. Rafael não perdoou os devaneios de seu adversário que jogou um avanço g3-g4 desesperado e com isso entregou todas as casas pretas do tabuleiro. O ataque das brancas provou ser ilusório: vitória brasileira. Já a partida de Fier foi bastante demorada. Em certo momento ele chegou a estar com dois peões de vantagem, mas com bispos de cores opostas não seria uma tarefa simples converter a vantagem. Talvez ele devesse ter tentado entrar num final de damas com peão a mais. De todo modo seu adversário se defendeu bem e conseguiu o empate.
Hoje a grande surpresa da rodada foi a derrota dos russos para a equipe grega por 2,5 a 1,5. Ainda não vi as partidas, mas me disseram mais ou menos como foi a derrota de Morozevich no segundo tabuleiro. Apesar de desconhecido para nós brasileiros, o GM Ioannis Papaioannou é forte e costumava ir bem nos Mundiais de categoria, bem como o terceiro tabuleiro, GM Hristos Banikas, que foi vice-campeão mundial sub 18 em 1996, torneio em que Rafael Leitão conquistou seu segundo título mundial. Banikas ganhou de Tomashevsky.
Uma partida muito importante na rodada foi a vitória de Aronian sobre Gelfand, onde o armeno empregou uma novidade teórica e aparentemente não deu chances ao israelense. Com essa vitória e graças a uma defesa tenaz de Petrosian no quarto tabuleiro após 103 lances e 5h30 de jogo, a Armênia conseguiu se recuperar com uma vitória importante de 2,5 a 1,5 sobre Israel.
A liderança do torneio até o momento está dividida entre EUA e Azerbaijão. Amanhã o Brasil enfrenta Israel.
O match teve os seguintes confrontos: Grischuk-Vescovi, Leitão-Morozevich, Tomashevsky-Fier, Milos-Malakhov. A primeira partida a terminar foi Milos-Malakhov, onde Milos procurou jogar de forma segura e com os bispos de cores opostas o empate foi inevitável. No segundo tabuleiro Rafael foi surpreendido com a opção de abertura de Morozevich, que jogou uma novidade teórica com ...Dxc3 na variante Vienna. Rafael também buscou o caminho mais seguro e logo a partida entrou num final de torres sem qualquer chance de vitória para nenhum dos lados.
Até esse momento a estratégia russa foi bastante profissional, buscando igualdade nos tabuleiros com as pretas, e tentando pressionar com as brancas nos tabuleiros 1 e 3. Foram duas partidas tensas. Fier jogou uma Defesa India do Rei e estava sofrendo alguma pressão na ala da dama até encontrar um forte sacrifício de peça na ala do rei. O russo teve sorte de contar com 30 minutos adicionais após a jogada 40, e encontrou uma forma de neutralizar o ataque de Fier com um xeque perpétuo, deixando o placar ainda igualado em 1,5 a 1,5.
Vescovi, Leitão e Fier
No primeiro tabuleiro o atual campeão russo mostrou porque está em boa forma, com cálculos precisos no apuro de tempo. Fui surpreendido logo na abertura, pois havia me preparado principalmente para enfrentar 1.e4, que foi sua principal arma no recente Campeonato Russo. Grischuk começou com o peão da dama, 1.d4 e após 1...Cf6 2.c4 e6 ele voltou a me surpreender com 3.Cf3 evitando a Defesa Nimzoindia. Gastei bastante tempo na abertura, o que foi um erro. Mas eu precisava me concentrar para escolher os lances corretos. Por volta do lance 13 meu adversário também caiu na pensativa e percebi que ele não estava muito satisfeito. Depois da partida ele comentou que não se lembrava da melhor maneira de enfrentar a ordem de lances que eu utilizei. A boa manobra 11...Te8 e 12...Bf8 foi jogada por Bronstein em seu match com Botvinnik pelo campeonato mundial nos anos 50.
Essa variante da Defesa India da Dama se caracteriza por um intenso jogo de manobras, razão pela qual joguei o interessante 14...Bb4 15.a3 Bf8!?, oferecendo dois tempos ao meu adversário, mas forçando o enfraquecimento da ala da dama após o avanço a2-a3. A partida seguiu equilbrada, e com a proximidade do apuro de tempo (ambos gastamos muito tempo em considerações estratégicas) tentei forçar acontecimentos com o lance 18...Ce4. A partir daí meu adversário jogou de forma impecável. Meu erro decisivo foi tentar complicar a posição com 25...d4 (25...cxb4 26.axb4 Tc7 era melhor, com leve inferioridade). Mesmo com pouco tempo o russo calculou bem e levou a partida para um final ganho com qualidade a mais, onde as brancas mostraram técnica ao centralizar o rei e finalmente forçar a minha capitulação.
Os resultados da rodada foram:
Rússia 2,5 x 1,5 Brasil
Azerbaijão 2,5 x 1,5 Armênia
Turquia 1 x 3 EUA
Egito 1 x 3 Israel
India 2,5 x 1,5 Grécia
Vale destacar a importante vitória do Azerbaijão sobre os bi-campeões olímpicos, a Armênia. Ambas as equipes são fortes concorrentes ao título, embora agora o caminho dos russos tenha sido facilitado, com essa valiosa vitória sobre o quarteto canarinho. :)
Amanhã é dia de recuperação e contamos com a torcida de todos no match contra o Egito. Acompanhe o site oficial em http://wtcc2009.tsf.org.tr/ e veja as partidas online e ao vivo! Rodadas a partir das 11h horário de Brasília.
- 22h10
- 31Dec
Mais um ano vai chegando ao fim e como de costume todo mundo faz um balanço sobre os principais acontecimentos. Talvez 2009 não seja um ano que se possa dizer “puxa, que ano bom!”, mas tampouco foi dos piores. Aliás, para ser bem sincero acredito que foi um ano bastante positivo para os brasileiros, e não me refiro somente no que diz respeito ao nosso jogo ciência, mas em geral eu diria que foi um ano bom. Mas certamente bem melhor será esse que se aproxima, pois como todo bom brasileiro, sou um otimista!
No cenário mundial acho que não há nem o que comentar – deu Magnus Carlsen na cabeça! O jovem norueguês rompeu todas as barreiras e inicia o ano de 2010 como o nº 1 do ranking mundial, com o rating de 2810. Aos 19 anos de idade, só falta conseguir o título oficial de campeão mundial nos próximos três anos para superar o recorde de seu treinador – aquele por muitos é considerado o melhor enxadrista de todos os tempos, Garry Kasparov.
E por falar em Kasparov e Carlsen, um dos grandes segredos do norueguês não deixa de ser essa assistência privilegiada. Aparentemente o investimento (bastante alto, segundo o próprio Carlsen) rendeu seus frutos antes do esperado. E de quebra provou ser uma grande jogada de marketing para o xadrez – ou pelo menos para os protagonistas. Se no Brasil o Corinthians se deu bem financeiramente com a contratação de Ronaldo, na Noruega o resultado foi parecido para Carlsen, embora com cifras mais modestas. Em poucos meses Magnus conseguiu dois patrocinadores dispostos a investir 4 milhões de coroas norueguesas (aproximadamente R$ 1,3 milhões) na carreira do prodígio.
Magnus Carlsen
Se de um lado temos muto a comemorar com o sucesso de Magnus, de outro continuamos assistindo com a mesma angústia a dificuldade da FIDE em promover nossa arte com sucesso. Um Grand Prix que só não pode ser qualificado como natimorto porque foram realizadas algumas etapas; vai e volta nas regras do circuito mundial; e a tradicional dificuldade em conseguir patrocinadores. Talvez o fenômeno Carlsen lance novas perspectivas no cenário, a iniciar com a proposta do governo da Noruega em sediar uma Olimpíada de Xadrez, já tendo garantido USD 12 milhões. Vamos ver.
Na Terra Brasilis o ano foi bom. De minha parte, não posso negar que fiquei bastante feliz com a minha decisão de voltar ao xadrez profissional. O bom astral e a motivação só não foram acompanhados por um treinamento adequado, porém bem ou mal os resultados foram animadores. A conquista do Campeonato Brasileiro coroou um ano dedicado a recuperar um pouco da boa forma e subir o rating. Na lista oficial de 1º de janeiro de 2010 meu rating será 2660, nominalmente o meu maior. No entanto ainda preciso testar minha força no exterior, razão pela qual esse rating tem que ser comemorado com cautela.
Também merecem destaque o GM Rafael Leitão, pela esmagadora vitória no torneio de Campinas no primeiro semestre e por elevar seu rating; o GM Gilberto Milos, pela excelente campanha no Continental e pela dura batalha contra Vitiugov na Copa do Mundo. Nossos jogadores mais jovens também deram o que falar, embora ainda tenham que controlar a instabilidade de seu jogo: o GM Fier pintou e bordou no primeiro semestre, venceu o Zonal Sulamericano e rompeu abarreira dos 2650 de rating, para infelizmente por todo o trabalho a perder e encerrar o ano com resultados muito abaixo de sua força.
Outro jogador irregular foi o MI Krikor, que brilhou na Final do Brasileiro, e... só. O GM André Diamant não teve um ano bom nos tabuleiros, mas também contribuiu com o xadrez brasileiro ao divulgar nosso esporte na telinha.
Mas se individualmente os resultados dos principais jogadores brasileiros não foram constantes, nos torneios por equipes o Brasil obteve duas conquistas importantes: Campeão da Olimpíada Mercosur e Campeão Panamericano por equipes. Este último foi um passo muito significativo, pois desde a primeira edição deste evento não se conhecia outro vencedor que não a equipe de Cuba. Com essa vitória o Brasil participará pela primeira vez da Copa do Mundo, que começa na semana que vem na Turquia, e terá cobertura neste blog. 
Brasil vence Olimpíada Mercosur
Este ano de 2009 ficará marcado como a ressurreição do tradicional CXSP – Clube de Xadrez de São Paulo – sob a presidência de Celso Vilares de Freitas. Além de passar por uma reforma, o clube desenvolve um projeto social na favela Heliopolis, em parceria com a STI Semp Toshiba. Além deste trabalho a Semp Toshiba patrocinou o match Fier vs. Mequinho, e proporcionou a participação de Katherine Vescovi no Mundial sub 10.
Agora é bola pra frente! Que 2010 traga muitas vitórias a todos, dentro e fora dos tabuleiros!
- 20h39
- 12Dec
Como de costume o torneio foi disputado em 11 rodadas no sistema schuring (todos contra todos), e o ritmo de jogo foi de 1h30 para cada jogador, com acréscimo de 30 seg por lance. Particularmente acho que esse ritmo não é o ideal e aparentemente a opinião geral internacional é a de que o xadrez precisa voltar a ritmos mais tradicionais, com pelo menos um controle (mais 30 minutos, p ex) após o lance 40.
Fora isso, a grande novidade foi o local de jogos: o zoológico de Americana! Há quem tenha achado surpreendente ninguém ter pensado nisso antes – afinal, o enxadrista é mesmo um animal estranho! Mas brincadeiras à parte, foi uma experiência interessante. Nós jogamos em uma sala envidraçada nova, que normalmente é utilizada para atividades literárias e culturais. A propósito, eu já passeei muito com minha família neste zoo na época em que morei em Americana. Quem estiver de passagem pela região não vai se decepcionar se fizer uma visita.
Os classificados para a Final deste ano eram, de acordo com o regulamento da CBX, os quatro primeiros colocados no campeonato anterior (os Grandes Mestres: Diamant, Vescovi, Fier e Leitão), os cinco classificados da Semifinal do Brasileiro (Máximo Iack Macedo, MI Bittencourt, MF Yago Santiago, MF Carlos Barreto, MF Roberto Molina), dois convidados da CBX (GM Gilberto Milos, MI Everaldo Matsuura) e um convidado do organizador (MI Krikor Mekhitarian).
Vamos aos resultados. Felizmente fiquei com o título, o sétimo de minha carreira (93, 99, 00, 01, 06, 07), ao somar 8,5 pontos. A prata ficou com o GM Gilberto Milos e o bronze com o MI Krikor Mekhitarian, que merece destaque pela excelente performance e pela conquista da norma de GM. Olhando em retrospectiva, um dado me chama a atenção: mais uma vez o convidado do organizador tem excelente resultado. Em 2008 o campeão foi André Diamant. Neste ano Krikor chegou a acariciar o título, mas desta vez eu não bobeei e aproveitei minha chance no confronto direto.

Giovanni Vescovi
Minha primeira partida foi contra o MI capixaba Jorge Bittencourt. Foi uma partida onde assumi alguns riscos na abertura, e provavelmente na mão de um jogador mais forte o resultado teria sido diferente. Mas neste torneio Bittencourt seguramente receberia o troféu suicida – a quantidade de posições ganhas ou empatadas que ele perdeu não cabem numa mão.
Na segunda rodada enfrentei o MF Molina. O representante de Minas Gerais não saiu triste do torneio. Afinal, com boas vitórias sobre os GMs Fier e Diamant, Molina conseguiu sua norma definitiva e título de Mestre Internacional! Na nossa partida Molina optou por uma defesa sólida, mas acabou perdendo num lindo final de damas onde as brancas ganham por zugzwang!
Na terceira rodada joguei aquela que considero tecnicamente a minha melhor partida do torneio, ao vencer de pretas numa Siciliana variante Kalashnikov (acho que é esse o nome) o MI Matsuura. Everaldo é um jogador experiente e sólido, mas não jogou um bom torneio este ano.
Meus confrontos com os representantes do Rio Grande do Norte ocorreram na quarta e sexta rodadas. Em ambas as partidas joguei com as peças pretas e consegui a vitória após aberturas pouco usuais. Barreto jogou sem maiores ambições, mas a partida contra Máximo Macedo foi muito interessante e exigiu muita energia. Macedo terminou o torneio na última colocação, mas na minha opinião ele poderia ter tido um resultado bem melhor. A falta de experiência em torneios de alto nível pesou.
Um dos confrontos mais esperados pela comunidade enxadrística brasileira era sem dúvida minha partida contra Fier na quinta rodada. O jovem talento começou o ano de 2009 muito firme, mas aparentemente se cansou com o excesso de viagens e torneios, e seus resultados recentes jogaram pela janela o trabalho anterior. Este torneio não foi exceção e Fier perdeu mais rating. Uma pena e um sinal de alerta para que ele tire o aprendizado necessário desta experiência. Fui surpreendido com a escolha das pretas – Defesa Benoni. Gastei muito tempo e deixei de apertar um final com leve vantagem, cedendo o primeiro empate.
Na sétima rodada, contra Diamant, mais uma vez gastei muito tempo na abertura e de certo modo não arrisquei como deveria, concordando com o empate por repetição. Esse tipo de atitude quase sempre é um sinal de alerta para o jogador. Vencedores não podem se sentir inseguros. A punição veio logo na rodada seguinte.
Leitão – Vescovi
Camp. Brasileiro (8), Americana 2009
1.d4 Cf6 2. c4 e6 3.Cf3 b6 4.g3 Ba6 5.Dc2 Bb4+ 6.Bd2 Be7 7.e4 d5 8.cxd5 Bxf1 9.Rxf1 exd5 10.e5 Ce4 11.Cc3 Cxc3 12.bxc3 Cc6 13.c4 Dd7 14.Rg2 Td8 15.Thd1 0-0 16.Tac1 dxc4 17.Dxc4 Cxd4 18.Be3 c5 19.Bxd4 cxd4 20.Txd4 De8 (até aqui o terreno era conhecido, afinal a primeira partida de alto nível com o lance 7.e4 foi Vescovi-Fier, São Paulo 2007) 21.Txd8 Dxd8 22.e6 (eu não esperava essa definição rápda, pois as brancas conseguem leve vantagem do modo que joguei com Fier. Agora a resposta correta é evidentemente 22...Da8, mas eu joguei rapidamente) 22...Bf6?? 23.exf7+ Txf7 24.De6 e as pretas abandonaram pois não há como evitar a invasão da torre branca e grande perda material.
Essa derrota foi resultado de uma cegueira tática com raízes mais profundas oriundas do empate sem luta contra Diamant. A essa altura Krikor conquistava mais uma vitória e me passava por meio ponto na classificação geral. O torneio de Krikor merece uma análise em separado e quem quiser saber mais pode visitar o Blog do Krikor. Após perder a primeira rodada de forma bastante elementar para Diamant ninguém poderia imaginar que ele se recuperaria como o fez. Acho que a vitória sobre Leitão logo na segunda rodada foi a injeção de ânimo que ele precisava. A verdade, no fundo, é que no xadrez tem torneios em que certas pessoas estão inspiradas. O ano de 2009 não foi nada animador para Krikor, mas inexplicavelmente neste torneio as vitórias vinham uma após a outra. Até mesmo o empate com Milos poderia ser facilmente um ponto inteiro, não fosse um par de imprecisões relativamente simples. Com a vitória sobre Matsuura na oitava rodada Krikor concluia uma incrível sequencia de 6,5 em 7 e conquistava sua norma de GM.

Krikor Mekhitarian
Não vem ao caso conjeturar o que se passou na cabeça de meu adversário na nona rodada, mas talvez o fato de ter conquistado a tão sonhada norma de GM tenha baixado o nível de concentração. Eu procurei fazer minha parte e minha estratégia de pressionar um longo final se mostrou eficiente – apesar de tecnicamente não ter sido muito boa. Eu não levantei da cadeira e no final Krikor “cracked under pressure” e pendurou um peão. Acho que o match Kasparov-Karpov me inspirou para essa partida, pois de certa forma lembra um pouco o modo como Karpov ia e voltava até o adversário se auto-destruir.
Com essa vitória bastava jogar com determinação contra o pernambucano Yago, que certamente estava sem a menor animação após um longo e difícil torneio. Dito e feito, após uma abertura descuidada eu logo consegui leve vantagem representada pela luta do cavalo contra bispo mau das brancas, embora ainda houvesse muitas dificuldades, que foram abreviadas com um deslize tático de meu adversário. Na última rodada enfrentaria Milos com as peças brancas e precisando de um empate, razão pela qual optei por uma linha sólida e bastante empatativa da Defesa India da Dama.

Gilberto Milos
Com essa conquista acabei levando mais alguns pontinhos de rating e com isso devo subir um pouco mais no ranking mundial. Como bem notaram alguns participantes e familiares, só ficou faltando o troféu e a cerimônia de encerramento. Aparentemente o fato de transmitirem as partidas online dá a impressão aos organizadores de que não estamos sozinhos. Menos mal que havia alguns pavões e garças soltos ali perto para se despedirem de nós.
Quem quiser conhecer um pouco mais da história dos Campeonatos Brasileiros, recomendo o site www.brasilbase.pro.br
Campeonato Brasileiro 2009 – classificação final
1. Giovanni Vescovi SP 8,5
2. Gilberto Milos Jr. SP 8,0
3. Krikor Mekhitarian SP 7,5
4. Rafael Leitão SP 7,5
5. Alexandr Fier SP 6,5
6. André Diamant SP 6,5
7. Roberto Molina MG 5,0
8. Everaldo Matsuura SP 4,5
9. Jorge Bittencourt ES 3,5
10. Yago Santiago PE 3,0
11. Carlos Alberto Barreto Filho RN 3,0
12. Máximo Iack Macedo RN 2,5
Giovanni Vescovi é um dos maiores nomes do xadrez brasileiro. Aos 20 anos, conquistou o título de Grande Mestre Internacional e desde 2002 manteve-se quase ininterruptamente entre os Top 100 no ranking mundial. Hexacampeão brasileiro e integrante da equipe olímpica, Giovanni já derrotou os maiores nomes do xadrez nacional e mundial.