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Na rabeira
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por Ricardo Vespucci
O sapateiro Rafael Perrone, os pintores de parede Joaquim Ambrósio e Antônio Pereira, o trabalhador braçal João da Silva, o motorista Anselmo Correia. Quando esses amigos começaram a pensar em formar um time de futebol, lá por volta de julho de 1910, não poderiam nem sonhar com a dimensão que aquilo iria tomar.
Tinham em mente um time de várzea, para alegrar os fins de semana do bairro popular do Bom Retiro, em São Paulo, onde viviam. O futebol já havia caído no gosto dos brasileiros, mas ainda era um esporte de elite, jogado em clubes ricos.
A idéia se alastrou aos poucos pelo Bom Retiro. Ao grupo inicial se juntaram outros trabalhadores. Na noite de 1º de setembro, todos se reuniram à altura do número 34 da atual rua José Paulino e ali mesmo, na calçada, sob um lampião, fundaram o Sport Club Corinthians Paulista, nome sugerido pelo pintor Ambrósio, sob inspiração das vitórias que o time inglês Corinthian Casuals F. C. vinha conquistado em excursão pelo Brasil (os jornais se referiam aos ingleses como Corinthian’s team, “time do Corinthian”, o que explica o “s” que ficou no nome brasileiro).
Bem depressa o time virou o xodó do bairro e, em seguida, disputando campeonatos oficiais, a partir de 1913, conquistou a grande maioria dos mais humildes da cidade. Era o “time dos operários” e reuniria, com o tempo, uma fanática torcida de milhões e milhões de brasileiros. Reflexo de tanta paixão, o time sempre foi muito mais coração do que razão, capaz de passar com espantosa rapidez da glória à tragédia e da tragédia à glória.
Quando raiou o século XXI, o Corinthians – já há muito um grande clube social e poliesportivo – era o maior vencedor de Campeonatos Paulistas de futebol, apesar de 23 anos seguidos de fracassos, e somava títulos de Copas do Brasil e Campeonatos Brasileiros. Guardava também a taça de Campeão Mundial de Clubes, coroando a década triunfante de 1990. Glorioso e trágico, caiu para a Série B do Campeonato Brasileiro em 2007.
Jogadores Históricos
Neco – Jogou dezessete anos pelo Corinthians, de 1913 a 1930, e é o recordista de títulos paulistas – ganhou oito. Em 313 jogos, marcou 239 gols. Junto com centro-médio Amílcar Barbuy, Neco foi o primeiro corintiano a ser convocado para a seleção brasileira, em 1916.
Cláudio – Ponta-direita de grande habilidade, temível cobrador de faltas, disputou 554 jogos durante os treze anos em que defendeu o Corinthians, de 1945 a 1957. Com 306 gols marcados, é o maior artilheiro da história do clube. Além disso, foram incontáveis seus cruzamentos que resultaram em gols. Líder em campo, ganhou o apelido de “Gerente”.
Rivellino – Por uma grande ironia – que cai bem na história insensata e dramática do Corinthians – este craque ganhou no clube apenas um título, e de expressão relativa: o Torneio Rio-São Paulo de 1966. Mas é inesquecível para quem gosta de futebol – por seus dribles, lançamentos, canhões de esquerda, gols de falta. Jogou nove anos pelo Corinthians, de 1965 a 1974, com 141 gols em 471 jogos. Foi campeão do mundo em 1970 e disputou também as duas Copas seguintes.
Sócrates – Líder em campo e fora dele, técnica requintada, visão de jogo, passes perfeitos, maestria no uso do calcanhar. Meia-direita, entrou no Corinthians em 1978 e saiu em 1984. Em 297 jogos, marcou 172 gols. Foi campeão paulista três vezes: em 1979 e no bicampeonato 1982/83. Protagonizou o movimento “Democracia Corinthiana”, que proporcionou maior participação dos jogadores nas questões, inclusive as administrativas, que os envolviam.
Marcelinho Carioca – Foi peça fundamental na conquista de quatro dos títulos mais importantes do Corinthians: a Copa do Brasil de 1995, os Campeonatos Brasileiros de 1998 e 1999 e o Mundial de Clubes, em 2000. Além disso, ganhou os Campeonatos Paulistas de 1995, 1997, 1999 e 2001. Perito em cobranças venenosas de falta, arrematador preciso. Em duas passagens pelo clube – de 1994 a 1997 e de 1998 a 2001 –, perfazendo oito anos, marcou 206 gols em 427 jogos.
Curiosidades
O Corinthians passou os primeiros anos de sua história jogando num campo de terra, nivelado e aplainado pelos próprios jogadores, na atual rua José Paulino. O primeiro estádio de verdade do clube se localizava nas imediações da atual ponte das Bandeiras, às margens do rio Tietê, em terreno arrendado da prefeitura. Foi construído em 1918 num mutirão de jogadores e torcedores. Em 1928, o Corinthians comprou a “Fazendinha”, no bairro do Tatuapé, uma área que pertencia ao E. C. Sírio. Ali surgiu o estádio que levou o nome do presidente Alfredo Schürig e hoje é mais usado para treinos.
Não há registros dos jogos no campo de terra. Na estádio da ponte das Bandeiras, foram 108 jogos, 83 vitórias, 12 derrotas e 43 empates, com 391 gols a favor e 111 contra. Na Fazendinha, entre 1928 e 2002, foram 469 jogos, 347 vitórias, 60 empates e 62 derrotas, com 1.322 gols a favor e 480 contra.
As cores do Corinthians são motivo de controvérsia. Muitos dizem que nos primeiros jogos a camisa era creme com punhos pretos, mas desbotaram com o tempo e se decidiu pela cor branca. Outros afirmam que a camisa tinha as cores azul marinho e creme, abandonadas em favor do branco e preto pela maior facilidade de encontrar tecidos dessas cores na praça. Para alguns, a camisa era creme com finas listas verticais pretas. Há, por fim, os que garantem que as cores sempre foram o preto e o branco.
As formas atuais do distintivo do Corinthians, com os remos e a âncora vermelhos aplicados ao antigo círculo negro, nasceram em 1940. Os acréscimos simbolizavam os esportes náuticos praticados no clube. Quem fez a arte-final do novo desenho foi Francisco Rebolo Gonsales, um dos maiores pintores brasileiros. Rebolo, durante dezessete anos, conciliou a carreira artística com o futebol. Médio-esquerdo, baixinho, foi campeão paulista de 1922. O distintivo de Rebolo acabou modernizado nos anos 1970-1980, ganhando a bandeira paulista ondulada e brilhos tridimensionais nos remos e na âncora.
O primeiro hino do Corinthians, da década de 1930, tinha letra de Eduardo Dohmen, música de La Rosa Sobrinho e foi gravada pela dupla Guarani e Pirajá, com orquestra. Dizia: “Corinthians, Corinthians/ a glória será teu repouso/ e nós, unidos sempre/ elevaremos o teu nome glorioso”. Não “pegou”. O hino atual, antes conhecido como O campeão dos campeões, foi composto por Lauro D’Ávila, em 1952, como marcha para o carnaval. Só caiu no gosto do povo quando foi exaustivamente tocado na tradicional Casa Manon, de instrumentos musicais e discos, nas comemorações do título de 1954.