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A briga de rua ganhou regras
Lutadores de punhos nus ou protegidos com tiras de couro, em posições de ataque e defesa. Imagens como essa estão gravadas em afrescos e objetos de cerâmica produzidos na Antigüidade, revelando as origens do esporte que certamente derivou de brigas de rua e, com o tempo, ganhando regras de conduta e respeitabilidade, tornou-se o que hoje chamamos de boxe. Existem registros do pugilismo esportivo datados de pelo menos setecentos anos antes de Cristo. Era, de fato, uma das mais prestigiadas atrações dos Jogos Antigos, que originaram as Olimpíadas atuais. A luta antiga tinha o nome latino de pugillatu e deu grande celebridade, entre outros atletas, a Diágoras, campeão em 464 a.C.
O fim dos Jogos Antigos, no século IV d.C., marcou também o desaparecimento quase completo da luta, que só ressurgiria mais de mil anos depois, na Inglaterra, mas de forma tosca, violência pura, praticado por gente rude, objeto de apostas a dinheiro e desprezado pela sociedade. A luta só recuperaria o antigo respeito esportivo pelas mãos de um nobre inglês, John Sholto Douglas, marquês de Queensberry, que em 1867 pôs no papel o primeiro conjunto moderno de regras do boxe, tornando a menos violenta. Surgiram então as luvas acolchoadas, a divisão de lutadores por peso, a limitação do número de assaltos. O boxe passou a ser chamado de “nobre arte”.
A primeira luta legalizada de boxe profissional ocorreu em 7 de fevereiro de 1882, nos Estados Unidos, país que o adotou com paixão e se tornou o centro mundial do esporte, revelando no século XX um elenco de lutadores magníficos, em especial pesos pesado.
Aqui entre nós, um grande campeão
O Brasil, em que a primeira luta documentada se deu em 1913 e a divulgação do boxe cresceu só a partir de 1920, formaria ao longo da história escassos campeões.
Em 1940, um salto: com a inauguração do ginásio do Pacaembu, surgiram brasileiros considerados de categoria internacional, como Atílio Lofredo e Antônio Zumbano. Os anos 1950 viram nascer boxeadores de alta expressão técnica, como Kaled Curi, Ralf Zumbano, Paulo de Jesus Cavalheiro e o maior de todos:
Éder Jofre, um nome na história mundial do boxe.
Éder, aos 21 anos, em 1958, tornou-se campeão brasileiro dos pesos-galos. Em 1960, campeão mundial. Defendeu seu título por sete vezes e só veio a conhecer derrota aos 30 anos, quando vencido duas vezes pelo japonês “Fighting” Harada. Mas Éder ainda voltaria: por dificuldades financeiras, subiu de novo no ringue em 1970 e, três anos depois, ganhou o título mundial dos pesos-penas. Em sua carreira profissional, realizou 78 lutas e ganhou 76, cinqüenta por nocaute.
No fim dos anos 1960, apareceriam o peso-mosca Servílio de Oliveira, um clássico, medalha de bronze na Olimpíada de 1968, e Miguel de Oliveira, médio-ligeiro que chegou a campeão mundial em 1975. Em 1983, iniciava carreira um dos raros pesos pesado brasileiros, Adílson “Maguila” Rodrigues. Com patrocínio e apoio forte da televisão, Maguila venceu dezenas de lutas, muitas contra adversários sem qualificação.
Contra os grandes Evander Holyfield e George Foreman, perdeu feio e se encaminhou para o fim de carreira. Só no fim da década de 1990 o Brasil teria um novo nome internacional: Acelino “Popó” de Freitas, que chegou aos títulos mundiais de superpenas e leves.
Grandes brasileiros
Antônio Zumbano, peso médio na década de 1940, considerado o primeiro grande astro do boxe brasileiro, realizou cerca de 140 lutas, ganhando mais da metade por nocaute.
Éder Jofre, campeão mundial dos pesos-galos em 1960 e dos pesos-penas em 1973, eleito pelos leitores da mais conceituada publicação de boxe do mundo, The Ring Magazine, como um dos dez melhores do século XX. Muhammad Ali estudava suas lutas.
Servílio de Oliveira, peso-mosca, tido por muito como o mais completo pugilista brasileiro, medalha de bronze da Olimpíada de 1968.
Miguel de Oliveira, médio-ligeiro destacado pela rapidez de raciocínio e pela potência dos golpes, campeão mundial em 1975.
Acelino “Popó” de Freitas, campeão mundial dos superpenas da WBO de 1999 a 2003 e da WBA em 2002-2003, campeão mundial dos pesos-leves da WBO em 2004 e em 2006-2007.
Grandes Estrangeiros
Muhammad Ali, considerado o melhor pugilista de todos os tempos. De preparo físico impecável, rápido como nenhum outro peso pesado, provocador, foi medalha de ouro na Olimpíada de 1960. Conquistou o primeiro título profissional em 1964 e o perdeu em 1967, além de ficar proibido de lutar por três anos e meio, por ter se recusado a lutar no Vietnã. Até então, usava o nome de batismo, Cassius Clay, que abandonou para se converter ao islamismo. Lutou 61 vezes contra os grandes da época, com 56 vitórias (37 por nocaute) e só cinco derrotas, por pontos. Recuperou e perdeu o título por quatro vezes e se retirou do boxe, em 1981, como campeão.
Rocky Marciano, considerado por muitos como o melhor de todos os tempos em todas as categorias. Nunca perdeu ou empatou uma luta sequer na carreira, marca jamais superada: foram 49 vitórias, das quais 43 por nocaute. Conquistou o título mundial em 1952 e o manteve até o fim de 1956, quando se aposentou. Foi o último branco campeão dos pesos pesado e inspirou a série de Rocky, um Lutador, de Sylvester Stallone.
Joe Louis manteve o título dos pesos pesado durante doze anos, entre 1937 e 1948, defendendo-o em 26 lutas. Seu confronto mais emblemático foi contra o alemão Max Schmelling, campeão mundial entre 1930 e 1932 e ídolo em seu país. Foram duas lutas em Nova York: na primeira, em 1936, o americano perdeu por nocaute no 12o assalto – resultado que foi aproveitado como propaganda do nazismo pelo ditador Adolf Hitler, “provando” que a raça ariana era superior. Na segunda luta, em 1938, o alemão caiu três vezes e foi nocauteado no primeiro assalto.
Teofilo Stevenson, cubano, ganhou medalha de ouro dos pesos pesados em três Olimpíadas seguidas, de 1972 a 1980. Com 1,90m de altura e 93kg, é considerado o maior pugilista não profissional de todos os tempos. Em vinte anos de carreira, lutou 321 vezes, venceu em 301 e perdeu em dez, nunca por nocaute. Rechaçou as repetidas ofertas milionárias para se profissionalizar nos Estados Unidos.
Julio César Chávez, mexicano, permaneceu invicto nas suas primeiras 91 lutas. Perfeccionista, friamente metódico, raramente desperdiçava um soco. Seus ganchos de esquerda no corpo do adversário eram demolidores. Ganhou os títulos de pesos-superpenas em 1984, dos pesos leves em 1988, dos pesos meio-médios-ligeiros no ano seguinte e empatou na disputa do cinturão dos pesos-médios em 1993. Realizou 107 lutas, com 102 vitórias, dois empates e três derrotas – estas, em fim de carreira e com vida desregrada.
Curiosidades
As lutas profissionais válidas por títulos são hoje disputadas em doze assaltos de três minutos, com intervalos de um minuto entre eles. Nas Olimpíadas, o boxe é enquadrado como esporte amador e oferece condições mais amenas aos lutadores: eles lutam com capacete de proteção, em quatro assaltos de dois minutos e um minuto de descanso entre assaltos.
Entre 1908 e 1915, nos Estados Unidos, o boxeador negro Jack Johnson manteve o cinturão de campeão mundial dos pesados e venceu muitos brancos que o desafiaram. Em conseqüência da “humilhação”, os dirigentes proibiram os cinemas de exibir lutas ou noticiários de boxe. Os filmes foram liberados quando o branco Jess Wilard conquistou o título e viraram grande êxito de público quando outro branco, quando Jack Dempsey, campeão em 1919, se tornou ídolo.
Uma tragédia brasileira. Benedito dos Santos, o Ditão, lutador enorme e de soco devastador, começou a lutar em 1923 e ganhou suas primeiras três lutas no primeiro assalto. Entusiasmados, os promotores de boxe viram uma chance milionária, quando passou pelo Brasil o italiano Erminio Spalla, campeão europeu. Bem depressa se organizou uma luta entre ambos, que rendeu uma fortuna: 120 contos de réis.
Logo no início, Ditão derrubou Spalla, mas, a partir do terceiro assalto, o europeu começou a demolir o brasileiro. Ditão acabou nocauteado no nono assalto, teve um derrame cerebral e terminou seus dias como inválido.
Outra tragédia brasileira. Luís Inácio, o Luisão, foi o maior peso pesado brasileiro e ganhou a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de 1955. Profissional, chegou a campeão sul-americano dos meio-pesados. Numa luta com o campeão chileno Humberto Loayza, sofreu violento nocaute. Sofreu lesão cerebral, mas não teve tempo de se recuperar. Os empresários marcaram em seguida novas lutas para ele e logo Luisão começou a apresentar sintomas de demência pugilística – ficou “sonado” e, extremamente sensível a qualquer golpe na cabeça, sofreu derrotas consecutivas no ringue e em brigas de rua. Morreu como indigente.