ESPN
- Sugestão da Redação:
- /fadoesporte
- /estatisticas
- /libertadores
- /xgames
- Youtube
- Orkut
Na TV
As notícias do dia no Sportscenter, às 23h
- 10h51
- 16Mar
O dia do aprendiz
por Alessandro Lucchetti, especial para a revista ESPN
Big Baby, o técnico da equipe americana da AND1, pediu para dar a entrevista fora do ginásio. Ele simplesmente não conseguia ouvir as perguntas. Em 12 de dezembro, mesmo sem estar lotado, o Ibirapuera urrava, muito mais alto do que o som do hip hop que saía das picapes. Havia acabado de acontecer o improvável, o indizível. Muita gente tinha sonhado e tentado, mas foi um exército de feios, pobres e malvados, com um jogo viril e até um pouco sujo, que conseguiu. Os papas do streetball, o basquete de rua, haviam acabado de tombar: 75 a 71 para o time brasileiro da And1.
Foi a primeira derrota dos americanos fora dos Estados Unidos desde 2000, ano da excursão pioneira para enfrentar as equipes internacionais de streetball designadas pelo nome da marca de roupas e equipamentos And1.
Mas, de volta ao Ibirapuera, o que aconteceu? “Aconteceu que eles ganharam da gente”, devolve o treinador grandalhão, vestido com calças largas e com uma expressão de quem acaba de levar um soco no estômago. Em seguida, tenta explicar. “Foi um jogo duro. Os juízes deram muitas faltas a eles. Os brasileiros usaram a defesa por zona”. Ao contrário do que acontece no basquete convencional, geralmente, no streetball, aplica-se a individual, para que a habilidade apareça no mano a mano. “Os fãs vieram para ver espetáculo e esse tipo de marcação não permite. Mas não vou bancar o bebê chorão”.
As ásperas palavras de Big Baby contrastam com a amabilidade de Grayson Boucher, o “Professor”, o astro do time americano. Horas antes do jogo, o único branco no tour responde calmamente a todas as perguntas, sentado em um confortável sofá num hotel no Morumbi. Ao lado dele, High Rizer, outro atleta, está todo esparramado, ouvindo um som no iPod.
The Professor só franze o rosto quando lhe pergunto se algum brasileiro teria nível suficiente para se juntar à nata americana da And1. “Definitivamente, não. Eles fazem umas 20 firulas por jogada e depois não vão à cesta. Acho que os brasileiros formaram uma concepção errada sobre o que é o streetball. Não é pura demonstração de habilidade sem objetivo”, explana a fera.
Grosso modo, pode-se dizer que o streetball é o basquete sem os aspectos que podem deixá-lo chato, como, por exemplo, a estruturação tática, as defesas fechadas, as comissões técnicas enormes da NBA e suas pranchetas rabiscadas com jogadas extremamente elaboradas. Boa parte das regras é dispensada. Vale conduzir a bola, quicá-la no pé, até jogá-la na cabeça do adversário para tirá-lo do sério. O que a galera quer ver são os dribles, o quique ilusório da bola, as artimanhas de quem gasta o domingo jogando.
“O streetball nada mais é do que o outro nome do basquete de playground. Não tem nada a ver com o que fazem os Harlem Globetrotters, que ensaiam as jogadas e usam microfones. Streetball é basquete intenso, cru. É um talento desenvolvido nos parques e nas ruas”, sentencia High Rizer.
A exemplo do que acontece no Brasil com os talentos do futebol, nos bairros pobres americanos despontam garotos com uma habilidade fora do comum no domínio da bola - só que o esporte é outro. De olho nessas jóias, a And1, fabricante de roupas e equipamento para basquete criada em 1993 na Pensilvânia, nos Estados Unidos, decidiu ligar sua imagem à dos meninos do streetball no final da década passada. Isso impulsionaria a modalidade até o cenário atual, com times da marca em diversos países. Em todos, brilham as estrelas saídas dos guetos.
O primeiro ídolo, forjado ainda na segunda parte dos anos 90, foi “Skip to My Lou”, apelido de Rafer Alston, que hoje, aos 33 anos, ainda exibe sua categoria como armador do New Jersey Nets. O treinador que lapidou o talento de Alston, Ron Naclerio, armazenou imagens em vídeo dos jogos de rua. As imagens chegaram aos editores da revista Slam, bíblia do basquete americano, e aos marqueteiros da And1, que passaram a brindar seus clientes com esse material.
Não demorou e a pirataria se encarregou de replicar e invadir as casas americanas com cenas da pura essência do jogo, uma arte da qual os negros se orgulham. Hoje, o streetball é considerado elemento de afirmação da cultura da periferia, assim como acontece com o hip hop, o rap e o grafite. As camisas largas, os tênis invocados e os pen-teados afro compõem o cenário. A irreverência, a audácia e a criatividade das jogadas são os atributos mais valorizados nesse meio, que deve muito à propagação popular das gravações.
De mão em mão, essas fitas VHS chegaram a lugares onde o streetball não existia, como mostra a história do The Professor, que já foi um aluno caxias. Sua habilidade e controle de bola, embora acima da média, não eram suficientes para compensar a baixa estatura e o corpo mirrado. Nas equipes escolares de Salem, no Oregon, ele não conseguia se destacar.
Foi então que um amigo lhe emprestou uma cópia do Mix Tape Volume 2, mais uma coletânea de imagens dos ases da And1. Essa era a única forma de o basquete de rua, que se fixou nos verões da costa leste, mas inexistente no frio noroeste dos Estados Unidos, chegar àquela região. Boucher dissecou os movimentos de craques como “Skip to My Lou”, Shane “The Dribbling Machine” e Tim “Headache” Gittens. Quando se tornou um bamba, fez um teste e se juntou aos magos da bola laranja.
Longe dali, em São Paulo, nos anos 2000, as tais fitas chegaram à Galeria do Rock, local no centro da cidade que atrai também os fãs do hip hop e do rap. De lá, invadiu os redutos basqueteiros das zonas Leste e Sul paulistanas, além das favelas e subúrbios do Rio. “Cresci vendo aqueles vídeos”, diz Gersinho, o filho de Gerson Victalino, que jogou na Seleção Brasileira nos anos 80. Gersinho cresceu bastante, até quase 2 metros, e ganhou um apelido: “Air Killer”. Há quatro anos, joga no time brasileiro da And1 sempre que há folga no calendário, já que, oficialmente, é atleta profissional de basquete do Estrelas del Area Cuatro, clube do Paraguai.
Gersinho destaca que o time brasileiro da And1, derrotado por seu congênere americano em 2006, no mesmo Ibirapuera, e em Brasília, em 2008, não foi ao ginásio desta vez para apenas tietar seus inspiradores. “Os caras são bons, mas não imbatíveis. É claro que eles não acertam todas”, frisa o pivô. “Vão dizer que só nós batemos, mas também apanhamos. A gente estava preparado. Vimos lances deles, desceram a porrada nos japoneses, por exemplo. Aqui no Brasil a gente não vai só apanhar, pode estar certo disso”, bravateia.
O time brasileiro da AND1 ainda batalha para tornar suas excursões rentáveis. Seu espetáculo hoje é exibido em eventos como a Virada Cultural, em São Paulo, festas de faculdades no interior e eventos Brasil afora. Nada que se compare ao tour americano, que passa por 35 cidades.
Quase a totalidade dos atletas da equipe dos Estados Unidos já teve ou ainda tem o sonho de chegar à NBA. Mas a oportunidade de correr o mundo como integrante de uma elite de jogadores de street é muito apreciada. “Claro que seria um milionário se jogasse na NBA, e definitivamente não sou um. Mas o que mais é diferente? Eles aparecem na ESPN? Eu também. Eles viajam bastante? Eu também. Eles têm acesso a mulheres lindas? Eu também. Você está vendo só?”, aponta High Raizer, com um sorriso sacana.
No Brasil, os atletas não podem se dedicar exclusivamente às exibições pelo time da And1, que, a bem da verdade, funcionam como bico. J’Dunk, ou Alfaudísio Júnior, por exemplo, veste a camisa do Arujá, que participa da modesta Liga Paulista, enquanto Raphael Rodrigues da Costa, o PH, disputa a terceira divisão espanhola – ambos no basquete de quadra convencional. A realidade por aqui é menos doce.
Os entusiastas do streetball nacional esperam que a vitória seja um marco de uma estrada que leve à profissionalização do esporte. Já há 50 times participando da Libbra (Liga Brasileira de Basquete de Rua), mas os jogadores estão nessa muito mais pela curtição do que por interesse na carreira. “Jogo basquete de rua porque está no meu coração”, enfatiza Gersinho.
E é bom que o time brasileiro mantenha essa garra, pois os criadores da febre estão babando por vingança. “O Brasil agora tem o título. Nós voltaremos aqui para resgatá-lo. E estaremos preparados”, ameaça Lonnie Southall, o Big Baby. Outra vez, a quadra vai ferver.
Foi a primeira derrota dos americanos fora dos Estados Unidos desde 2000, ano da excursão pioneira para enfrentar as equipes internacionais de streetball designadas pelo nome da marca de roupas e equipamentos And1.
Mas, de volta ao Ibirapuera, o que aconteceu? “Aconteceu que eles ganharam da gente”, devolve o treinador grandalhão, vestido com calças largas e com uma expressão de quem acaba de levar um soco no estômago. Em seguida, tenta explicar. “Foi um jogo duro. Os juízes deram muitas faltas a eles. Os brasileiros usaram a defesa por zona”. Ao contrário do que acontece no basquete convencional, geralmente, no streetball, aplica-se a individual, para que a habilidade apareça no mano a mano. “Os fãs vieram para ver espetáculo e esse tipo de marcação não permite. Mas não vou bancar o bebê chorão”.
As ásperas palavras de Big Baby contrastam com a amabilidade de Grayson Boucher, o “Professor”, o astro do time americano. Horas antes do jogo, o único branco no tour responde calmamente a todas as perguntas, sentado em um confortável sofá num hotel no Morumbi. Ao lado dele, High Rizer, outro atleta, está todo esparramado, ouvindo um som no iPod.
The Professor só franze o rosto quando lhe pergunto se algum brasileiro teria nível suficiente para se juntar à nata americana da And1. “Definitivamente, não. Eles fazem umas 20 firulas por jogada e depois não vão à cesta. Acho que os brasileiros formaram uma concepção errada sobre o que é o streetball. Não é pura demonstração de habilidade sem objetivo”, explana a fera.
Grosso modo, pode-se dizer que o streetball é o basquete sem os aspectos que podem deixá-lo chato, como, por exemplo, a estruturação tática, as defesas fechadas, as comissões técnicas enormes da NBA e suas pranchetas rabiscadas com jogadas extremamente elaboradas. Boa parte das regras é dispensada. Vale conduzir a bola, quicá-la no pé, até jogá-la na cabeça do adversário para tirá-lo do sério. O que a galera quer ver são os dribles, o quique ilusório da bola, as artimanhas de quem gasta o domingo jogando.
“O streetball nada mais é do que o outro nome do basquete de playground. Não tem nada a ver com o que fazem os Harlem Globetrotters, que ensaiam as jogadas e usam microfones. Streetball é basquete intenso, cru. É um talento desenvolvido nos parques e nas ruas”, sentencia High Rizer.
A exemplo do que acontece no Brasil com os talentos do futebol, nos bairros pobres americanos despontam garotos com uma habilidade fora do comum no domínio da bola - só que o esporte é outro. De olho nessas jóias, a And1, fabricante de roupas e equipamento para basquete criada em 1993 na Pensilvânia, nos Estados Unidos, decidiu ligar sua imagem à dos meninos do streetball no final da década passada. Isso impulsionaria a modalidade até o cenário atual, com times da marca em diversos países. Em todos, brilham as estrelas saídas dos guetos.
O primeiro ídolo, forjado ainda na segunda parte dos anos 90, foi “Skip to My Lou”, apelido de Rafer Alston, que hoje, aos 33 anos, ainda exibe sua categoria como armador do New Jersey Nets. O treinador que lapidou o talento de Alston, Ron Naclerio, armazenou imagens em vídeo dos jogos de rua. As imagens chegaram aos editores da revista Slam, bíblia do basquete americano, e aos marqueteiros da And1, que passaram a brindar seus clientes com esse material.
Não demorou e a pirataria se encarregou de replicar e invadir as casas americanas com cenas da pura essência do jogo, uma arte da qual os negros se orgulham. Hoje, o streetball é considerado elemento de afirmação da cultura da periferia, assim como acontece com o hip hop, o rap e o grafite. As camisas largas, os tênis invocados e os pen-teados afro compõem o cenário. A irreverência, a audácia e a criatividade das jogadas são os atributos mais valorizados nesse meio, que deve muito à propagação popular das gravações.
De mão em mão, essas fitas VHS chegaram a lugares onde o streetball não existia, como mostra a história do The Professor, que já foi um aluno caxias. Sua habilidade e controle de bola, embora acima da média, não eram suficientes para compensar a baixa estatura e o corpo mirrado. Nas equipes escolares de Salem, no Oregon, ele não conseguia se destacar.
Foi então que um amigo lhe emprestou uma cópia do Mix Tape Volume 2, mais uma coletânea de imagens dos ases da And1. Essa era a única forma de o basquete de rua, que se fixou nos verões da costa leste, mas inexistente no frio noroeste dos Estados Unidos, chegar àquela região. Boucher dissecou os movimentos de craques como “Skip to My Lou”, Shane “The Dribbling Machine” e Tim “Headache” Gittens. Quando se tornou um bamba, fez um teste e se juntou aos magos da bola laranja.
Longe dali, em São Paulo, nos anos 2000, as tais fitas chegaram à Galeria do Rock, local no centro da cidade que atrai também os fãs do hip hop e do rap. De lá, invadiu os redutos basqueteiros das zonas Leste e Sul paulistanas, além das favelas e subúrbios do Rio. “Cresci vendo aqueles vídeos”, diz Gersinho, o filho de Gerson Victalino, que jogou na Seleção Brasileira nos anos 80. Gersinho cresceu bastante, até quase 2 metros, e ganhou um apelido: “Air Killer”. Há quatro anos, joga no time brasileiro da And1 sempre que há folga no calendário, já que, oficialmente, é atleta profissional de basquete do Estrelas del Area Cuatro, clube do Paraguai.
Gersinho destaca que o time brasileiro da And1, derrotado por seu congênere americano em 2006, no mesmo Ibirapuera, e em Brasília, em 2008, não foi ao ginásio desta vez para apenas tietar seus inspiradores. “Os caras são bons, mas não imbatíveis. É claro que eles não acertam todas”, frisa o pivô. “Vão dizer que só nós batemos, mas também apanhamos. A gente estava preparado. Vimos lances deles, desceram a porrada nos japoneses, por exemplo. Aqui no Brasil a gente não vai só apanhar, pode estar certo disso”, bravateia.
O time brasileiro da AND1 ainda batalha para tornar suas excursões rentáveis. Seu espetáculo hoje é exibido em eventos como a Virada Cultural, em São Paulo, festas de faculdades no interior e eventos Brasil afora. Nada que se compare ao tour americano, que passa por 35 cidades.
Quase a totalidade dos atletas da equipe dos Estados Unidos já teve ou ainda tem o sonho de chegar à NBA. Mas a oportunidade de correr o mundo como integrante de uma elite de jogadores de street é muito apreciada. “Claro que seria um milionário se jogasse na NBA, e definitivamente não sou um. Mas o que mais é diferente? Eles aparecem na ESPN? Eu também. Eles viajam bastante? Eu também. Eles têm acesso a mulheres lindas? Eu também. Você está vendo só?”, aponta High Raizer, com um sorriso sacana.
No Brasil, os atletas não podem se dedicar exclusivamente às exibições pelo time da And1, que, a bem da verdade, funcionam como bico. J’Dunk, ou Alfaudísio Júnior, por exemplo, veste a camisa do Arujá, que participa da modesta Liga Paulista, enquanto Raphael Rodrigues da Costa, o PH, disputa a terceira divisão espanhola – ambos no basquete de quadra convencional. A realidade por aqui é menos doce.
Os entusiastas do streetball nacional esperam que a vitória seja um marco de uma estrada que leve à profissionalização do esporte. Já há 50 times participando da Libbra (Liga Brasileira de Basquete de Rua), mas os jogadores estão nessa muito mais pela curtição do que por interesse na carreira. “Jogo basquete de rua porque está no meu coração”, enfatiza Gersinho.
E é bom que o time brasileiro mantenha essa garra, pois os criadores da febre estão babando por vingança. “O Brasil agora tem o título. Nós voltaremos aqui para resgatá-lo. E estaremos preparados”, ameaça Lonnie Southall, o Big Baby. Outra vez, a quadra vai ferver.
Tags:
- 16h51
- 29Jul
/revistaespn
7 coisas sobre ser plantão de rádio
Henry Xavier é o único profissional cego da função no rádio brasileiro
- 16h15
- 29Jul
/revistaespn
Fora do Mundial, Pau Gasol não aceita ser chamado de traidor
Acusando o desgaste das últimas temporadas, o pivô do Los Angeles Lakers irá desfalcar a Espanha na competição
- 15h28
- 29Jul
/revistaespn
Novo reforço do Flu, Belletti vê Real Madrid mais forte com Mourinho
Fã do português, o brasileiro acha que o técnico consegue fazer frente ao Barcelona de Guardiola nesta temporada