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- 18h55
- 09Jan
Exclusivo: Fabiana Murer 'perdoa' chineses e se inspira em Maurren para dar volta por cima
por Fábio Matos, do ESPN.com.br
Em abril de 2008, Fabiana Murer, a principal atleta brasileira no salto com vara, conversou com a reportagem do ESPN.com.br e não disfarçou a expectativa de que poderia brigar por uma medalha nos Jogos Olímpicos de Pequim, quatro meses depois. Tanta confiança se transformou em pesadelo, e a experiência na China não foi das mais felizes.
Embalada pela sequência de seus melhores resultados na carreira, obtidos justamente às vésperas da Olimpíada, a brasileira viveu um drama no Estádio Olímpico, o Ninho de Pássaro. Após saltar a primeira marca de 4,45m, Murer se deu conta de que uma das varas de seu conjunto havia desaparecido do tubo que a atleta utilizava.
Transtornada com o episódio inusitado, ela perdeu o controle e chegou até a tentar impedir a chinesa Shuying Gao de começar a terceira série de salto (4,55m), fazendo com que a equipe de árbitros interrompesse temporariamente a disputa. O imbróglio não se resolveu, a vara de Fabiana continuou desaparecida, e a brasileira desperdiçou todas as três chances que teve para superar a marca de 4,65m - bem abaixo dos 4,80m que havia alcançado no Troféu Brasil de Atletismo, no mesmo ano.
Um dia depois, a vara foi encontrada pela organização dos Jogos na Vila Olímpica, junto ao material dos atletas desclassificados. Mas nem as desculpas públicas do Comitê Organizador da Olimpíada (Bogoc) aliviaram a frustração de Fabiana e de seu técnico, Élson Miranda.
Cinco meses depois do trauma em Pequim, Fabiana Murer voltou a conceder uma entrevista exclusiva ao ESPN.com.br em que deixa claro que "perdoa" a China pelo ocorrido - na época, chegou a afirmar que "nunca mais" voltaria ao país asiático. A atleta também revelou se inspirar na colega Maurren Maggi, medalha de ouro no salto em distância, como grande exemplo de superação, e contou que continua muito amiga da russa Yelena Isinbayeva, número um do mundo no salto com vara.
No último fim de semana, Fabiana Murer ficou com a medalha de prata em sua primeira competição de 2009, o Meeting de Reno, nos Estados Unidos. Ela perdeu o ouro no desempate para a norte-americana Chelsea Johnson - as duas competidores cravaram 4,45m e não conseguiram ultrapassar o sarrafo posicionado a 4,50m. A anfitriã levou a melhor por ter superado a marca de 4,25m logo em seu primeiro salto, enquanto a brasileira precisou de duas tentativas.
Leia a íntegra da entrevista:
ESPN.com.br - Como você avalia seu desempenho na primeira competição da pré-temporada, o Meeting de Reno, no último fim de semana?
Fabiana Murer - Como toda competição em começo de ano, é claro que as atletas ainda estão bem abaixo do que realmente podem alcançar. Neste momento, ainda não estou preparada para competir em alto nível, como estava em Pequim, por exemplo. Mas gostei do meu desempenho e da medalha de prata, apesar de ter perdido o ouro no desempate. A temporada começa para valer em fevereiro, e já estou me preparando para isso. O legal é que com os 4,45m que saltei já garanti uma vaga no Mundial.
ESPN.com.br - Começo de ano também é tempo de fazer balanços. Em 2008, você conseguiu as melhores marcas de sua carreira, mas também passou pelo pior momento em sua trajetória com o "sumiço" da vara em Pequim. De que forma analisa o ano que passou?
Fabiana - Não posso dizer que foi um ano muito bom, mas seria exagero afirmar que 2008 foi ruim para mim. Muito pelo contrário! Consegui saltar 4,70m no Mundial Indoor de Valência, e 4,80 no Troféu Brasil, em São Paulo, minha melhor marca até hoje. Depois, fui muito consistente nas competições que disputei na Europa, sempre muito perto dessas marcas. De forma geral, foi um ano bacana para mim. A Olimpíada foi uma grande experiência, apesar desse problema com a vara... Mas participar do maior evento esportivo do mundo é sempre algo inesquecível.
ESPN.com.br - Minutos depois do fim de sua participação na Olimpíada de Pequim, você chegou a dizer que jamais voltaria à China. Mudou de ideia ou continua com a mesma posição?
Fabiana - Se tiver um grande torneio lá, é claro que vou voltar, sem nenhum problema. Eu disse aquilo em um momento de muito nervosismo em que eu estava realmente muito abalada e revoltada com tudo o que aconteceu. Na verdade, até hoje não consigo entender como fizeram aquilo comigo em uma prova tão importante. Mas se houver competições importantes lá, eu volto. Em 2010, aliás, estão pensando em concentrar os grandes torneios na Ásia, e muito provavelmente a China será um dos países escolhidos.
ESPN.com.br - Medalha de ouro em Pequim no salto em distância, Maurren Maggi, guardadas as devidas proporções, também passou por momentos muito difíceis na carreira e teve de dar a volta por cima. Não participou dos Jogos de Atenas-2004 por conta de uma suspensão por doping e pensou até em abandonar a carreira, mas voltou atrás e brilhou na China. É claro que os momentos pelos quais ela passou foram até muito mais dramáticos, mas você se espelha no poder de superação da Maurren para sonhar com um desempenho mais feliz em uma Olimpíada?
Fabiana - Sem dúvida. Acho que a Maurren é um grande exemplo disso tudo, e é claro que pensei muito nela desde que passei por tudo aquilo em Pequim. E ela não é só um exemplo para mim, mas para todos os atletas brasileiros. Lembro que ela sempre foi um espelho para mim desde que comecei a minha carreira, e ela estava em um grande momento, ainda antes do doping (em 2003). A Maurren continua sendo um exemplo de superação.
ESPN.com.br - Os Jogos de Pequim marcaram também a consagração definitiva da russa Yelena Isinbayeva, que é sua amiga pessoal há muito tempo. Você conversou com ela depois do fim da Olimpíada?
Fabiana - Sim, eu falei com ela pouco tempo depois dos Jogos, porque nos encontramos em algumas competições na Europa. Nós sempre tivemos uma relação de amizade muito próxima, até por treinarmos juntas durante boa parte do ano. Ela até perguntou para mim o que tinha realmente acontecido em relação à vara, porque estava tão concentrada em seu salto que não percebeu o ocorrido na hora. Ela me disse: 'Mas não teria sido melhor você simplesmente fazer seu salto com outra vara e esquecer tudo?'. Eu respondi que as coisas não eram tão simples assim e que aquilo tinha me desconcentrado totalmente. Também liguei para ela quando foi eleita a melhor atleta do ano pela Federação Internacional de Atletismo (Iaaf).
ESPN.com.br - Qual é o seu planejamento para a temporada 2009?
Fabiana - As principais competições vão começar mesmo em fevereiro, quando vou participar de cinco torneios na Europa. Depois disso, volto ao Brasil para treinar forte para o Mundial. Este ano também tem uma coisa legal: o salto com vara feminino agora faz parte do Golden League (competição que envolve cinco disputas femininas e cinco masculinas e na qual estará em jogo o prêmio de US$ 1 milhão para o atleta que vencer a mesma prova em todas as seis etapas). As provas escolhidas para o feminino são 100m, 400m, 100m com barreiras, salto em altura e salto com vara. Acho até que a Yelena tem tudo para ficar com esse prêmio.
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