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Parte fundamental do treinamento militar, na Ásia, na Europa Oriental e nos arredores do Mediterrâneo, os jovens já praticavam uma forma incipiente de Atletismo cerca de quarenta séculos anos atrás. Até que, por volta de 1.500 AC, a cada quatro anos, de modo a homenagear os seus mortos em guerras e a criar um oásis de paz entre os conflitos bélicos, os helênicos inventaram os Jogos Olímpicos, com eventos regulares em que fulguravam as provas de corrida e de arremessos.
Em 776 AC os Jogos se oficializaram. Tanto que, em Olímpia, a sudoeste da Grécia, construíram, em mármore, o primeiro estádio da História, 4.000 pessoas nas suas arquibancadas, uma pista de 25m56 de largura, vinte raias, comprimento de 192m27 – os seiscentos pés do mitológico Hércules. Dizem anotações da época que um certo Coreobos de Ília conquistou o evento de velocidade – e competiu sem roupa.
Daí, através dos tempos, o Atletismo se desenvolveu naturalmente entre todos os povos do planeta, como forma de preparação obrigatória ou como folguedo de crianças e de adolescentes. Até que, em 1812, na clássica Academia Militar de Sandhurst, Grâ-Bretanha, os intrutores dos oficiais implantaram as primeiras regras do chamado Esporte Base.
Pouco depois, em 1840, uma escola de Shrewsbury, na mesma nação, pioneiramente organizou uma competição com os regulamentos bem definidos. E, claro, quando aconteceu, em Atenas, Grécia, 1896, a edição inicial dos Jogos Olímpicos da era moderna, o Atletismo se tornou a modalidade mais atraente e mais emocionante. Enfim, a partir de 1912, com o surgimento da IAAF, a International Association of Athletic Federations, se disseminou no mundo todo, com torneios regulares.
No Brasil, coube ao “Jornal do Commercio”, do Rio, por volta de 1880, patrocinar os certames da cidade. Um estímulo que se consolidou em 1914, quando o País se filiou à IAAF. Já em 1925 o Brasil disputaria um campeonato sulamericano. Em 1932, nos Jogos de Los Angeles, colocaria três representantes entre os oito melhores: César Raposo, o oitavo no Salto em Extensão; Lúcio de Castro e Carlos Joel Nelli, futuro diretor de redação de “A Gazeta Esportiva”, respectivamente o sexto e o oitavo no Salto com Vara. Então, nos Jogos de Helsinque, Finlândia, em 1952, Adhemar Ferreira da Silva arrebataria a primeira medalha de ouro do País, na modalidade, ao ganhar, brilhantemente, o Salto Triplo, com a marca de 16m22, novo recorde do planeta. Em Melbourne, Austrália, nos Jogos de 1956, Adhemar duplicaria o seu ouro – belos 16m36.
Símbolos Eternos
- O norte-americano James Brendan Connolly, segundanista da Universidade de Harvard, ganhador, no Salto Triplo, com 13m71, da primeira medalha de ouro nos Jogos inaugurais de Atenas, 1896.
- O norte-americano Jim Thorpe, de sangue um quarto irlandês e o restante indígena, ganhador, nos Jogos de Estocolmo, Suécia, em 1912, num intervalo de apenas 72 horas, do ouro do Pentatlo e do Decatlo. Azar, em 1913, por receber 25 dólares de ajuda de custo de um time secundário do Beisebol das EUA, injustamente foi considerado profissional e teve cassados os seus lauréis. Só em 1982, durante os Jogos de Los Angeles, o COI reconheceu a sua estupidez e o reinstalou no pódio ao homenagear uma neta de Thorpe em cerimônia solene.
- O finlandês Paavo Nurmi, maestro da corrida de fundo, prata nos 5.000m e ouro nos 10.000m e nos 8.000 do Cross-Country individual e por equipes de Antuérpia, Bélgica, 1920; ouro nos 1.500m, nos 3.000m por equipe, nos 5.000m e nos 10.650m do Cross-Country individual e por equipes de Paris, 1924; prata nos 5.000m e ouro nos 10.000m de Amsterdam, Holanda, 1928. Acusado pela sua própria federação de exagerar nas suas despesas de viagem, Nurmi, hipocritamente, acabou considerado um profissional e impedido de disputar os Jogos de 32.
- O norte-americano Jesse Owens, negro, apelidado “O Antílope de Ébano”, ganhador, nos Jogos de Berlim, 1936, das contendas dos 100 Metros, dos 200 Metros, do Revezamento 4 X 100 e do Salto em Extensão. Diz uma das lendas do Atletismo que Adolf Hitler, o líder nazista, eventualmente presente nas tribunas do estádio, teria se recusado a cumprimentar o grande vencedor. Mas, na verdade, nas vezes em que Owens subiu ao pódio, Hitler estava em outro lugar.
- A holandesa Francine Koen, apelidada Fanny, que participou, discretamemente, aos dezoito de idade, dos Jogos de Berlim, 1936. Daí, já casada com Jan Blankers, o seu treinador, e sob o nome de Fanny Blankers-Coen, já mamãe, em Londres, 1948, abiscoitou o ouro dos 100m, dos 200m, dos 80m com barreiras e do revezamento 4 X 100.
Símbolos Nacionais
- Um militar, o paulistano Sylvio de Magalhães Padilha se frustrou ao não superar as eliminatórias da sua especialidade, os 400m Sobre Barreiras, nos Jogos de Amsterdam, Holanda, em 1928. Voltou à pista, em Los Angeles, 1932, porém, e obteve uma excelente quinta colocação na final da prova. Padilha, daí, se tornaria um abnegado pela vitalização do Atletismo e do esporte, em geral, no Brasil. Tanto que, em 1963, viraria presidente do COB e organizaria o inédito Pan de São Paulo.
- Ganhador do ouro do Salto Triplo em Helsinque, 1952, e em Melbourne, 1956, na verdade Adhemar Ferreira da Silva já havia estado nos Jogos de Londres, em 1948, inexperiente, e sem sucesso. Talvez o maior de todos os tempos, na sua especialidade, no intervalo dos seus dois triunfos nos Jogos, em 1955, no Pan da Cidade do México, cravou a marca de 16m56, recorde mundial. No evento de Roma, em 1960, aos 33 de idade, desafortunadamente, não ultrapassou as eliminatórias. De todo modo, foi tocantemente aplaudido pelo público do estádio.
- No dia 16 de Outubro de 1968, na fase qualificatória dos Jogos da Cidade do México, com 17m10 o italiano Giuseppe Gentile bateu o recorde mundial do Salto Triplo, que pertencia, desde 1960, ao polonês Jozef Schmidt. Daí, na decisão, se sucederiam as emoções. O mesmo Gentile estabeleceu 17m22. O favorito soviético Viktor Saneyev, 17m23. O brasileiro Nélson Prudêncio, o Pru, 17m27. Pois Pru já se acreditava o dono do ouro quando, na sua última tentativa, Saneyev registraria a mágica de 17m39. Prudêncio ainda competiria nos Jogos de Munique, em 1972, quando ficaria com o bronze e Saneyev levaria o ouro.
- Uma tradição no Atletismo do Brasil, depois de Adhemar e de Prudêncio, o Salto Triplo produziu João Carlos de Oliveira. Apelidado João do Pulo, no Pan da Cidade do México, em 1975, com a estupenda marca de 17m89, ele havia estabelecido um primado aparentemente insuperável na sua especialidade. Em Montreal, Canadá, 1976, porém, João se limitou ao bronze. E, em Moscou, 1980, foi prejudicadíssimo pela parcialidade dos árbitros locais, que anularam nove das suas doze possibilidades. Tentavam favorecer Viktor Saneyev, em busca de um quarto ouro. João se limitou ao bronze. Mas, Saneyev não sobrepujou o seu compatriota Jaak Udmae. Posteriormente, João sofreria um terrível acidente de automóvel, na Via Anhanguera, e perderia uma perna.
- Em 1981, aos 18 de idade, Joaquim Cruz, brasiliense radicado nos EUA a fim de estudar inglês e jogar basquetebol, foi transformado, por um instrutor da universidade mórmon de Brigham Young, em Utah, num corredor de meio-fundo. Transferido a Eugene, no Oregon, meca da especialidade, então, Joaquim se aprimorou ao ponto de, nos Jogos de Los Angeles, humilhar o grande Sebastian Coe, britânico, dono do recorde mundial dos 800m, e amealhar o primeiro ouro do Brasil desde Adhemar Ferreira da Silva – aliás, o único do País naqueles Jogos. Em Seul, Coréia do Sul, 1988, se distraiu na decisão e, quando já celebrava o triunfo, acabou batido, por centímetros, pelo queniano Paul Ereng.